Lunar Womb, mais um registro lançado pela Hellhound Records em parceria com Wino, antecede a trágica morte de Danny Hood num acidente de motocicleta. Após a dissolução do antigo line up e a passagem do baterista Dale Corver pela banda, Greg Rogers e Danny Hood, respectivamente baterista e baixista do Acid Clown são convidados por Wino para gravar o segundo álbum do The Obsessed, porém o inoportuno incidente exigiu que um novo baixista fosse chamado para substituir Danny e então Scott Reader assumiu o posto de baixista na banda.
O impacto que este álbum causou foi tamanho que a Columbia Records logo demonstrou interesse pela banda, que acabou fechando contrato com a gravadora para a prensagem de seus futuros trabalhos. Lunar Womb é um álbum sufocante, que expressa um ódio crescente e se distância de certa forma da sonoridade do play anterior e mais singular aos álbuns que Wino gravou com o Saint Vitus, assumindo um caráter mais enérgico, embora ainda pessimista e maldito e obviamente pesado. Os elementos condenados que atribuíram à banda a notável fama de precursora do Doom Metal estão presentes nas passagens mais lentas e em sua geral ambientação, densa, carregada de incredulidade e negação.
Algumas das mais brilhantes composições da carreira de Wino estão contidas neste álbum, que é um clássico inquestionável do Doom Metal, conseguindo exceder as expectativas geradas por seu antecessor, numa mistura do Classic Rock com o Punk e às influências de Black Sabbath. A dinâmica entre Reeder, com suas linhas de baixo consideravelmente expressivas, embora simples, e a condução precisa de Roger complementou de forma magistral a profusão de riffs de Wino, categoricamente distorcidos e pesados, tornando Lunar Womb um trabalho indispensável na discografia da banda, direto, cru e visceral, construído para ser tão maldito quanto realmente é.
As guitarras soam originais, ainda arrastadas e graves, mostram também momentos de boa desenvoltura em solos bem construídos, numa pegada mais rock&roll e um timbre mais psicodélico, também com influências mais evidentes do punk e riffs consideravelmente impregnados pelas marcas do Blues, com efeitos de chorus que lhes atribuem características oitentistas. Ao contrário de muitos, Wino consegue neste álbum sobrepujar a influência de Tony Iommi num som dotado de identidade, não mais comparável às clássicas Pentagram e Black Sabbath, soando verdadeiramente próprio.
Os vocais de Wino apresentam-se de versatilidade incrível, de forma angustiante e ao mesmo tempo agressiva e por vezes opressiva, em mais uma entrega total de sua capacidade às composições. Seu impostamente vem do âmago, permeando o disco com sua personalidade. A bateria uma vez mais se mostra na função de marcação, enquanto Scott Reader confere mais peso e versatilidade com linhas de baixo presentes, acrescentando peso às composições. A parte lírica aborda uma temática pessimista e reflexiva, relativa à morte, tristeza, fim e condenação. A arte da capa é da pintura “Saturno devorando a um filho”, do espanhol Francisco Goya.
“Blue Brother Steel” inicia o álbum de forma opressora e intimidante, prenunciando um disco mais veloz e agressivo. Os vocais de Wino fluem junto com os riffs arrastados de guitarra, contrastando com um baixo pulsante e uma bateria marcada, numa ambientação selada e vigilante, partindo para um andamento veloz, poderoso e intenso, original como toda a obra da banda. Destaque também para as linhas de bateria com grooves bem encaixados e pedais precisos.
“Bard” revelas às fortes influências do Punk, com uma sonoridade singular aos trabalhos do Blag Flag, ressaltando um baixo pulsante e carregado de peso, com uma bateria veloz e uma impostação vocal de Wino bem mais agressiva que o convencional, numa letra condenada e tocada pelo ódio. “Hiding Mask” é um dos pontos altos do disco, uma composição intensa carregada de uma forte carga emocional. A música soa esmagadora, com guitarras simples, porém eficazes e diretas, favorecendo o brilhantismo do desempenho de Wino nos versos líricos. Uma atmosfera soturna é estabelecida em sua introdução, cedendo espaço à riffs distorcidos e um baixo pesado, esbanjando pessimismo em seu seguimento.
“Spew” revela o inquestionável talento de Wino como guitarrista, em solos prolongados e de excelente construção, em múltiplas progressões de diferentes andamentos. Pesada e rápida, a composição mantém influências do Stoner. com uma pegada mais voltada ao Hard Rock dos anos setenta, conservando a agressividade do Punk. Uma faixa instrumental perfeitamente encaixada. “Kachina” soa soturna e arrastada, com riffs mais viajantes e carregados de efeito, estabelecendo uma ambientação mais sombria e reflexiva e a sensação de demência típica do Sludge.
“Jaded” começa com um riff de guitarra que lembra a musicalidade característica do Southern Rock e consequentemente às influências da banda mais voltadas ao Sludge, num clima mais denso e arrastado, de ritmo mais lento e passagens abrasivas. “Back To Zero” começa pesada, com riffs cadenciados e vocais claramente mais voltados ao Punk, resumindo em definitivo os conceitos estéticos do Sludge, com uma letra de natureza pessimista.
“No Blame” é carregada pela influência do Punk/Hard Core, de seus riffs às progressões de bateria e seus vocais agressivos com backing vocals gritados. “No Mas”, com riffs de guitarra com toques de Blues, uma pegada retomando os referenciais do Stoner e um caráter lisérgico, torna a lembrar às influências da sonoridade do Black Sabbath sobre a banda.
“Endless Circles” é cadenciada e depressiva em sua essência, em versos líricos de contestação e tomados de sofrimento, seguindo de forma lenta e densa, num final ruidoso e insólito, caindo diretamente na incrível faixa-título. “Lunar Womb” mostra o porquê de o The Obsessed ser reverenciado como um dos ícones do Doom Metal. Uma composição genial, que resume toda a proposta do play, desde seus riffs mais marcantes aos momentos mais introspectivos. A entonação condenada de Wino, o timbre aplicado por Scott Reader, um solo bem construído e passagens de andamento mais rápido, e os resultados viajantes conseguidos com o uso do pedal wah wah são
algumas das características que resumem a música. O álbum chega ao fim com “Embryo”, dando continuidade a “Lunar Womb”, encerrando em fade out, sucedendo sons que parecem originados do âmago do qual o álbum foi gerado.
Lunar Womb é uma álbum extremamente recomendado aos que apreciam do Doom Metal Tradicional, numa faceta mais bem construída e de certo apelo comercial da banda, devido ao seu peso e velocidade. Um disco condenado e contemplativo, original e arrojado, ao melhor estilo do que Scott "Wino" Weinrich sabe compor, no ápice de toda sua genialidade. Lunar Womb não apenas sobrepuja seu antecessor como cria uma nova identidade á sonoridade do The Obsessed, um ponto fundamental na carreira da banda.
Ficha Técnica
Full-length, Hellhound Records
1991
Line up
Scott "Wino" Weinrich: Vocais e guitarras
Scott Reeder: Baixo
Greg Rogers: Bateria
1. Brother Blue Steel - 03:26
2. Bardo - 02:21
3. Hiding Mask - 03:53
4. Spew - 03:06
5. Kachina - 03:44
6. Jaded - 03:58
7. Back To Zero - 03:57
8. No Blame - 01:25
9. No Mas - 02:5
10. Endless Circles - 04:11
11. Lunar Womb - 06:22
12. Embryo - 01:47
The Church Within (1994)
The Church Within é o último álbum registrado pelo The Obsessed antes do rompimento da banda. O line up é formado por Wino, novamente nas guitarras e vocais, Greg Rogers na bateria e Guy Pinhas no baixo. As influências do Stoner e do Sludge estão evidentes, a pegada mais Punk também continua presente nas composições, assim como as características mais voltadas ao Hard Rock. Os riffs pesados e arrastados, os vocais pessimistas e as progressões bem construídas, muito influenciadas pelo Vol.4 do Black Sabbath. Sua parte lírica mantém-se focada em escapismos psicodélicos, condenação e pessimismo.
The Church Within é mais um álbum cru, porém sólido e de potencial, assim como foram os plays anteriores do The Obsessed, com grandes momentos á todos os instrumentistas, apesar do talento de Scott “Wino” como vocalista e guitarrista manter-se como ponto forte da banda. Sua produção é a melhor entre os três registros lançados pelo The Obsessed. Os vocais de Wino apresentam a mesma versatilidade vista em Lunar Womb, ainda mais opressivos, inconfundíveis nos versos líricos e destruidores nas faixas mais voltadas ao Sludge. Os solos de guitarras mais uma vez são bem elaborados, marcando presença nas músicas, como parte fundamental embora não se projetem exacerbadamente nas composições, soando agradáveis de bem encaixados. Os riffs mantêm o peso característico da banda, agora reforçado pelo excelente trabalho de Guy Pinhas no baixo. As linhas de bateria mostram-se bem mais elaboradas, e devido à qualidade da produção, bem mais límpidas. Num geral, seu instrumental conserva o pessimismo de The Obsessed e parte da agressividade de Lunar Womb, embora as composições de Church Within não sejam tão enérgicas no tocante a andamentos quanto seu antecessor, sem cultivar os aspectos mais comerciais que o mesmo ocultava.O play resultou em grande repercussão, de shows em festivais de respaldo e com bandas de grande porte, além de aparições em canais de televisão e um documentário sobre a banda.
“To Protect And To Serve” abre o álbum com uma pegada Stoner e a ambientação pessimista típica do The Obsessed. “Field Of Hours” começa com uma breve intro no baixo, com um aspecto geral muito similar às composições do debut, com riffs similares aos de “River Of Soul”, pesada, cadenciada e opressora, com traços fortes do Stoner e do Sludge e um excelente trabalho de Greg Rogers.
“Streamlined” é uma composição mais rápida, com influências do Hard Core e do Punk, em uma memorável performance de toda a banda, com um baixo pulsante, um ótima bateria e solos mais calcados no Heavy Metal do fim da década de oitenta. “Blind Lightning” é arrastada e pesada, ao melhor estilo do Proto-Doom executado pelo Pentagram na década de setenta. “Neatz Brigade”, de início marcado, cria uma atmosfera opressora, que ganha força com seus riffs pesados, calcificados pelo baixo presente de Guy Pinhas. A guitarra distorcida de Wino em conjunto com as progressões de Rogers faz desta uma composição de aspecto condenado e vil, reforçado pelos brilhantes arranjos vocais.
“A World Apart” anuncia-se evidentemente influenciada pelo Punk Rock logo á princípio, com uma marcação característica do estilo e os vocais gritados de Wino. “Skybone” começa com um baixo pesado e distorcido, com um aspecto inegável do Sludge, cadenciada e pessimista em sua letra condenada, com um excelente solo, bem encaixado à composição, sem fazê-la perder suas características mais intimistas.
“Streetside” começa pesada e cortante, com uma impostação vocal mais grave de Wino, lembrando bastante os trabalhos do debut. A composição segue a pegada cadenciada e repetitiva, de continuidade num solo arrastado e bom construído. O desempenho de Rogers nesta faixa merece ser citado. A forma como o baterista trabalha o uso dos pratos de ataque e china, dão à música marcações cortantes em acentuações magistrais, sobressaindo-se em sua simplicidade.
“Climate of Despair” é uma composição mais distorcida, com peso em passagens bem encaixadas. Cadenciada e também caracterizada por mudanças de andamento, além de um certo cunho experimental, evidencia o trabalho do The Obsessed dentro do Sludge, resgatando ainda certas influências psicodélicas e riffs típicos de Tony Iommi.
“Mourning” é uma composição cadenciada e pessimista, com guitarras de riffs mais rápidos e abafados, complementados por um efeito de phaser, atribuindo uma sonoridade mais distorcida e enlameada à música. “Touch Of Everything” tem um início pesado, com riffs graves e um baixo presente, mantendo os aspectos que consagraram o The Obsessed em sua continuidade.
“Decimation” é mais agressiva, aos moldes de Lunar Womb, mas a performance de Greg Rogers mantém-se como nas composições anteriores de Church Within, mais dinâmicas, sem pedais duplos contínuos ou mesmo os d-beats do Hard Core, com eventuais influências de Blues. Já nas guitarras, são perceptíveis as influências do rock do sul dos EUA e do Roc Psicodélico.
A instrumental “Living Rain” fecha o álbum de forma grandiosa, compilando em partes a sonoridade do The Obsessed, entre variações típicas do Stoner, passagens mais atmosféricas, com influências psicodélicas, o peso e a distorção suja do Sludge e a relevante influência de Master Of Reality e Vol.4 sobre a banda.
The Church Within é visto por muitos como o melhor dos trabalhos do The Obsessed, resgatando uma sonoridade mais semelhante ao seu debut, porém sem perder a pegada mais agressiva de Lunar Womb. Por outro lado, não contém o apelo mais comercial de seu antecessor, sem esbanjar pedais duplos e demais influências da NWOBHM, o que leva muitos a vê-lo como retroativo. Qualquer das visões são irrelevantes quanto á qualidade óbvia deste play, que fecha o ciclo de full-lenghts da lendária The Obsessed.
Ficha Técnica
Full-lenght, Hellhound Records
1 de Março, 1994
Line up
Scott “Wino” Weinrich – Vocais e guitarras
Guy Pinhas – Baixo
Greg Rogers – Bateria
1. To Protect And To Serve - 03:05
2. Field of Hours - 05:39
3. Streamlined - 02:10
4. Blind Lightning - 03:39
5. Neatz Brigade - 06:50
6. A World Apart - 01:33
7. Skybone - 03:50
8. Streetside - 03:25
9. Climate of Despair - 03:04
10. Mourning - 04:05
11. Touch of Everything - 04:37
12. Decimation - 04:09
13. Living Rain - 02:25
Conclusões
Após o lançamento de Church Within, a Columbia encerra seu contrato com a banda, fazendo com que o The Obsessed retornasse ao underground, lançando o single Altamont Nation em 1996. Em seguida, a banda se dissolveria uma vez mais, com Wino originando a Shine (que mudaria de nome não muito tempo depois, passando a chamar-se Spirit Caravan), enquanto Guy e Rogers formariam a Goatsnake.
Scott "Wino" Weinrich
Scott “Wino” Weinrich é uma lenda, sem dúvidas, e poucos dentro da música underground são merecedores da influência creditada ao seu trabalho da mesma forma. Seu trajeto promissor teve início no The Obsessed e a sonoridade da banda gerou um rompimento aos padrões da construção convencional da musicalidade do Doom Metal para sua época, em maior discrepância em relação à efêmera NWOBHM, ao unir em sua música o Punk e o Metal, executando suas composições de forma sincera e cativante, com uma pegada Rock&roll, agressiva e revolucionária. Sua música, inicialmente de direcionamento mais voltado ao Stoner transformou-se após o lançamento de algumas demos, adotando um som mais característico ao Sludge, resgatando também parte da essência do Blues que havia sido deixada um pouco de lado com o surgimento da NWOBHM, e como se não bastasse, reinventou-se com seus registros posteriores, sem nunca perder em qualidade e originalidade.
O The Obsessed não apenas fez história como banda precursora e de vital importância ao metal como também revelou um grande número de músicos, futuros membros de bandas expoentes, de grande importância após o seu fim, a exemplo de Scott Reader e a lendária Kyuss, responsável pela popularização do Stoner. A força motriz por trás de uma nova perspectiva para o Doom Metal (e consideravelmente também para o Stoner e o Sludge) impulsiona todos os intentos musicais de Scott “Wino”, do próprio The Obsessed, ao Saint Vitus e projetos mais recentes, como Spirit Caravan, The Hidden Hand e Shrinebuilder, contribuindo sempre para definições mais concisas do Doom Metal contemporâneo.
Músicas Recomendadas:
River Of Soul, Hiding Mask, Lunar Womb, Inner Turmoil, Brother Blue Steel, Back To Zero, Touch Of Everything, Living Rain, Streetside, World Apart.
Fontes
The Obsessed (Documentário)
Enciclopaedia Metallum: The Metal Archives: metal-archives.com



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