Os irmãos Jones encarregaram-se de compor e escrever todas as músicas do Pagan Altar, buscando inspiração em cemitérios, em particular por sua ambientação lúgubre, e com uma sonoridade avessa aos aspectos predominantes de sua época, (assim como o Witchfinder General, optaram por um direcionamento mais setentista) com um diferencial em associar em suas canções uma harmonização precisa entre vocais e guitarras, mudanças sutis de andamento que soavam como progressões naturais nas músicas, calcificando sempre suas composições em partes bem definidas, com influências claras do Blues Rock e inegavelmente do Black Sabbath e do Hard Rock da década de setenta.
Pagan Altar (1982) - Alan Jones, Trevor Portch, Terry Jones, John Mizrahi
Assim como o Black Sabbath foi visto como banda satânica por seu direcionamento lírico, o mesmo aconteceu com o Pagan Altar, porém sua temática mostrou-se ainda mais abrangente, em relação principalmente às suas performáticas apresentações. Após alguns shows no começo da década de oitenta, a banda lança a demo Pagan Altar com formato K7, em 1982, de forma independente, já que em seus primeiros anos de existência, nenhum selo ou gravadora demonstrou interesse por suas composições. Do começo da década de oitenta são provenientes vários registros contidos em lançamentos posteriores, gravados no estúdio da banda, conhecido como Pagan Studios.
As dificuldades de financeiras foram cruciais para a primeira cisão da banda, já que o cenário local não tinha olhos para a sonoridade do Pagan Altar, assim como a mídia também não os favorecia, e com o tempo a banda passou por um ciclo vicioso de apresentar-se nos mesmos clubes de pequeno porte em que começaram, e assim como muitas das bandas da NWOBHM, o Pagan Altar passou por um duro período de dificuldades, caindo na obscuridade após ter conquistado seu modesto espaço. Jonh Mizhari havia deixado o Pagan Altar no começo de 1983, e alguns outros bateristas integraram o line up, porém nenhum deles chegou a ajustar-se, então Alan Jones decidiu desligar-se da banda, investindo em outros projetos, como a XYZ, retornando apenas dois anos depois, em 1987, já com uma percepção musical mais amadurecida e tendências criativas que se relacionavam muito com o aspecto cultural celta, chegando a integrar o line up de algumas bandas, dentre elas, Iceni e Malac Cross. Trevor Portch também integrou outros projetos no mesmo período, sendo o The Goon Squad o mais promissor. A banda entraria num longo período de hibernação, em mais de duas décadas de inatividade.
Volume I (1982)
Originalmente gravado em 1982, em formato DEMO sob o título Pagan Altar, Volume I foi oficialmente lançado pela Oracle Promotions, mostrando ao mundo a sonoridade condenada e original do Pagan Altar. Volume I expressava de forma inerente o misticismo contido em sua sonoridade. Registrado numa grande casa vitoriana com fama de ser assombrada por uma jovem garota irlandesa, num terreno de rumores malditos, onde diziam ter sido palco da execução de bruxas e hereges. Segundo membros da banda, episódios inexplicáveis aconteciam com freqüência alarmante durante o processo de gravação. Uma casa assombrada que servia como residência para uma banda chamada Pagan Altar, que se deslocava aos concertos numa van com um caixão em seu teto, foram motivos mais que suficientes para julgar o grupo como adoradores do diabo. Toda esta ambientação maldita forneceu à banda inspiração para conceber o debut. O play foi registrado em 1982, porém foi lançado apenas em 1998, e ainda assim, Volume I possuí uma vibe indiscutivelmente setentista e retro, marca do trabalho de algumas outras bandas consolidadas do Doom Metal Tradicional.
Volume I é um registro único, singular e original, diferente de tudo que foi produzido naquela época. Em sua temática de ocultismo e feitiçaria, Terry Jones incorpora em sua performance um espírito rebelde e inflamado de oposição, com versos líricos poderosos, alternando em lamentos soturnos, bem executados em seu timbre anasalado, fazendo de seu vocal algo sombrio e inelutável. As guitarras constroem o clima do debut, arrastando-se em riffs diretos e eficazes, como solos baseados na escala pentatônica. Baixo e bateria casam de forma harmoniosa, conferindo fundações sólidas à interação perfeita entre as linhas vocais e guitarras, atribuindo plenitude ao som da banda e uma ambientação opressiva e poderosa. O álbum cria com sua musicalidade um vórtice de ambiências, que vão desde passagens contrastantes em saudosismo ao vazio espiritual. Volume I é um registro único, singular e original, diferente de tudo que foi produzido naquela época. Com uma parte lírica dedicada ao paganismo e ao ocultismo, sua musicalidade reúne todas as influências condenadas do Black Sabbath em seus primeiros álbuns e algo de Led Zeppelin.
“Pagan Altar” têm início em versos lúgubres vociferados por Terry Jones em invocação à Samael. A composição estabelece uma atmosfera maldita, com seus riffs arrastados em conjunto à frases mais agudas na guitarra. As influências de Black Sabbath são óbvias e retomam toda uma tendência que foi exaustivamente seguida na década de setenta. Destaque para as guitarras com fortes marcas do Blues, progressões cadenciadas de bateria e os versos líricos inflamados de Terry.
“In The Wake Of Armadeus” é uma das poucas composições do disco dotadas de um andamento mais enérgico, com riffs fundamentalmente malditos, de início que lembra bastante a faixa “Electric Funeral”, do segundo álbum do Black Sabbath. Toda a composição em sim evoca saudosamente a época áurea do quarteto de Birminghan, porém do refrão em diante tomando um direcionamento visivelmente característico à Volume I, com versos líricos poderosos e passagens com mais influências do Blues.
“Judgement Of The Dead” começa com uma introdução memorável com teclado e baixo, as guitarras entram em seguida, calcificando o aspecto maldito da música. Com seus riffs lúgubres arrasta-se em relação direta às linhas vocais de Terry Jones. Com ótimas linhas de guitarra, as bases e solos se complementam perfeitamente, destacando o brilhantismo de Alan Jones. Nesta faixa mais uma vez Terry Jones mostra sua marca, executando seus versos como um espectro que se lamenta na pós-vida. Um dos pontos altos do álbum e um clássico absoluto do Doom Metal, chegando ao fim após mais de sete minutos de pura influência setentista, com mais um excelente solo calcado na escala pentatônica e os versos malditos de Terry em fade out.
“Black Mass” começa densamente ambientada, numa narração soturna de Terry Jones e em seu seguimento evoca tudo de mais sombrio que uma vez o Black Sabbath originou. Com seus riffs melódicos e arrastados, a faixa cresce em seguimento à impostação magnífica de seu front man, prenunciando o apocalíptico retorno de Satã. “Night Rider” evoca uma vez mais os elementos do paganismo e já a principio revelando as fortes influências da década de setenta, de ícones como Black Sabbath e Led Zeppelin.
A introdução “Acoustics”, que originalmente deveria chamar-se “Cry Of The Banshee”, apresenta traços de composições do Led Zepellin, com um direcionamento celta, ambientando o espírito pagão e revelando futuros horizontes que seriam seguidos por Alan Jones. “Reincarnation” fecha o debut do Pagan Altar com uma introdução intensa e viajante, mostrando a perfeita harmonia instrumental da banda, onde cada elemento parece complementar o outro para, conferindo solidez à faixa. “Reincarnation” incorpora também elementos do Hard Rock da década de setenta associados aos elementos mais pesados do Black Sabbath e do Led Zeppelin em seus primeiros trabalhos. As guitarras, mais uma vez apresentando marcas do Blues, parcialmente ignorado pela maioria das bandas da NWOBHM, consolida o Pagan Altar como uma banda à frente de sua época, apesar de retomar elementos de quase duas décadas atrás, construindo uma sonoridade original e old school, que viria a ser contemplada muito tempo depois. “Reincarnation” é mais um dos muitos clássicos provenientes de Volume I, um álbum essencial para a história do Doom Metal.
Ficha Técnica
Full-lenght, Oracle RecordsFevereiro, 1998
Line up
Terry Jones - Vocais
Alan Jones - Guitarras e Backing vocals
Trevor Portch - Baixo
John Mizrahi - Bateria
01. Pagan Altar - 07:20
02. In The Wake Of Armadeus - 04:11
03. Judgement Of The Dead - 07:46
04. The Black Mass - 05:18
05. Night Rider - 04:07
06. Acoustics - 01:33
07. Reincarnation - 08:44
*As informações da Ficha Técnica seguem as contidas no álbum Volume I, de 1998, e não à Demo de 1982.

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