quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Trouble - Parte III

Run To The Light (1987)


The Skull marcou o início de uma problemática que se tornaria constante na carreira do Trouble pelos anos que estariam por vir. O álbum não havia tido a repercussão esperada e a banda entrava num grave conflito interno devido ao abuso de drogas por parte de Eric Wagner. Em seu segundo disco com o Trouble, o vocalista apresentou maior versatilidade em seu trabalho vocal, porém em Run To The Light seu declínio compromete em parte as composições da banda. No intervalo entre 1985 e 1987, ano de lançamento do terceiro álbum, Sean McAllister deixou o Trouble por conta dos conflitos constantes, sendo substituído por Ron Holzner e como se não fosse o suficiente, em 1986, Jeff Olson deixa a banda para lecionar música, tendo sido diplomado bacharel. As fontes que afirmam que a saída do baterista deveu-se ao fato dele ter se tornado pastor não são de procedência confiável, pois carecem de fontes concretas. Jeff foi substituído por Dennis Lesch, embora nunca tenha se afastado da banda de forma permanente.

A banda retornaria aos estúdios em 1987 para gravar seu terceiro disco. A verdade é que o Trouble se arrastava nessa época e devido a todos os problemas, era de se esperar que algo bem diferente (não de forma positiva) estaria por vir. Run To The Light perdeu a carga densa presente em toda a atmosfera de The Skull. No segundo disco da banda, víamos um Trouble menos furioso que em Psalm 9, já no terceiro registro, as influências do Thrash Metal estão omissas, discretas e as tradicionais mudanças de andamento que tomavam o ouvinte de surpresa ficaram na lembrança (atribuo isto ao fato de Jeff Olson já não comandar as baquetas no Trouble). O que restou então do velho Trouble? Restou o peso, as eternas influências. Em Run To The Light estão presentes músicas pesadas, cadenciadas, com equalizações de guitarra muito semelhantes às do Black Sabbath. A pegada Stoner e os toques psicodélicos sem dúvidas são as características mais pertinentes deste novo álbum. A temática cristã se mantém como direcionamento lírico da banda, que desta vez trata das consequências para a existência daqueles não acreditam no deus cristão. Vale ressaltar que o nível das composições neste álbum passa a dever em relação ao instrumental, que em resumo, parece previsível e em declínio se comparado aos trabalhos anteriores da banda, o que na verdade contribui para a fácil assimilação de seus sermões enfáticos.

Eric Wagner já não soa tão poderoso nos versos líricos e seus agudos soam por vezes débeis. O timbre grave e limpo que abrilhantou The Skull aparece também neste álbum e mais uma vez traz bons momentos aos ouvintes. Fica obvio a mudança no desempenho do frontman, pois a discrepância entre as performances apresentadas entre os álbuns anteriores e este é tremenda. Ainda assim, Eric Wagner é a voz do Trouble e mesmo deixando a desejar em alguns momentos, faz um trabalho muito competente. 

As guitarras ainda estão pesadas, encorpadas e conservam a afinação grave e um timbre que enfatiza os médios. O som ainda é opressor e consegue manter-se agressivo mesmo na ausência das passagens mais velozes presentes nos álbuns anteriores. As influências neoclássicas e progressivas incitadas em The Skull se mostram mais evidentes agora. Os solos estão mais velozes e dotados de certo grau de virtuosismo. Ron Holzner faz o que deve fazer no baixo sem momentos muito expressivos.

Com Dennis Lesch na bateria, temos talvez o motivo para uma alteração tão perceptível na sonoridade do Trouble. Lesch faz um ótimo trabalho em suas viradas, mas enquanto Jeff Olson trazia a velocidade e agressividade da NWOBHM, Lesch parece buscar influências no Hard Rock setentista, o que cortou em parte o caráter abrasivo e desesperado das composições em passagens mais rápidas, o que não foi compensado nos momentos mais introspectivos e cadenciados.  Os teclados, que estavam presentes ainda em The Skull, também estão em Run To The Light, ainda discretos e bem posicionados.

“The Misery Shows” abre o álbum com uma introdução produzida por sintetizadores, que aos poucos cede lugar para as guitarras em fade in, que tomam conta da faixa com seus riffs pesados, com as cavalgadas típicas da NWOBHM e também algo do Hard Rock. Excelente trabalho de Bruce Franklin e Rick Wartell. “Thinking Of The Past” associa outra vez ao som de Run To The Light as influências da NWOBHM e do Hard Rock, enfatizando seus ícones máximos, com um trabalho de guitarras que em muito remete ao Judas Priest e uma dinâmica muito semelhante à adotada pelo Iron Maiden em suas composições.

“On Borrowed Time” mostra em evidência os traços transcendentais de Run To The Light. A faixa tem inicio com um sintetizador bem discreto compactuando com a percussão e as guitarras, que em seguida executam sua adaptação para o terceiro movimento da sonata nº 2 para piano em Bm, de Chopin. A composição evidencia os traços Thrash e Stoner que marcarão o álbum, associados à ambiência opressiva do Doom Metal. Talvez nesta faixa as consequências do envolvimento de Eric com as drogas estejam mais perceptíveis, chegando a soar risível em certos momentos.

“Run To The Light” resgata elementos do Rock Psicodélico, oriundos diretamente do começo dos anos setenta e mostra isso logo em seu primeiro riff. As influências do Blues são evidentes, principalmente em seu solo, talvez o mais melódico executado pela banda em toda sua carreira até o momento. As partes mais pesadas alternam entre momentos cadenciados e outros com uma certa pegada de Thrash Metal, mas ambos refletem a aura condenada presente na faixa título. “Run To The Light” é uma composição extremamente melancólica e mostra um apanhado geral de tudo que é este terceiro álbum da banda. 

“Piece Of Mind” traz mais das influências dos Hard Rock dos anos setenta com sutis traços progressivos. As mesmas características mostram-se de certa forma também em “Born In A Prison”, que embora apresente passagens mais agressivas, carece da violência aplicada por Jeff Olson nos álbuns anteriores. Suas passagens mais arrastadas remetem diretamente à Psalm 9. As guitarras em dual e o riff formado do mais puro Stoner, seguido de um solo melódico, que transita da calmaria à rapidez, são os momentos marcantes desta composição. Um dos grandes momentos de Run To The light, evocando a glória do debut do Trouble.

“Tuesday’s Child” assim como as faixas anteriores, assimila as influências da NWOBHM com o Hard Rock e o Rock Psicodélico, em um dos momentos menos inspirados de Eric Wagner, que mostra um desempenho bem abaixo das expectativas. A própria faixa em si, mostra-se bem previsível e simplista, sem muito a adicionar ao play.

“The Beginning” tem um começo sombrio e melancólico, que antecede uma passagem mais pesada e cadenciada. Em seu primeiro break, aguardamos um dos usais petardos propiciados por Jeff Olson, porém estes momentos permanecem apenas na lembrança. A música segue arrastada e diferenciada do habitual ate seu solo estranhamente marcado pelos crashs de Dennis Lesch. A música deslancha apenas em seu final, com o mesmo caráter soturno de seu início, realçado pelos teclados ao fundo e vai progredindo, encerrando-se de forma estranha.

Mesmo com todos os problemas aparentes, o Trouble, como referência exaltada pelos adoradores do Doom Metal esbanja competência e não decepciona. Mais uma vez trazem ao mundo um álbum de extrema importância para o Stoner/Doom e que embora se mostre inferior aos seus antecessores, mantém a qualidade e continua a honrar o lendário nome Trouble e uma vez mais, propaga-se na instância do underground.

Ficha Técnica
Full-lenght, Metal Blade Records
15 de Junho de 1987

Line- up
Eric Wagner - Vocais
Bruce Franklin - Guitarra
Rick Wartell - Guitarra
Ron Holzner - Baixo
Dennis Lesch - Bateria

1. The Misery Shows - 5:33
2. Thinking of the Past - 3:51
3. On Borrowed Time - 5:25
4. Run to the Light - 5:58
5. Peace of Mind - 3:01
6. Born in a Prison - 4:45
7. Tuesday's Child - 3:28
8. The Beginning - 5:22

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Trouble - Parte II

The Skull (1985)




Com Psalm 9, o Trouble atingiu o patamar de banda fundamental na genealogia do Doom Metal, trazendo novos conceitos e gerando tendências. O sucessor do aclamado debut viria no ano seguinte ao seu lançamento.  The Skull, originalmente lançado em Março de 1985 não conseguiu manter o nível de qualidade do primeiro full-lenght da banda.  Os elementos marcantes de Psalm 9 estão todos presentes, mas The Skull soa como uma repetição do álbum anterior, sem inovar ou mesmo trazer contribuições significativas para o que já vinha sendo feito na época.  É importante deixar claro que The Skull é um grande álbum, embora não consiga igualar-se ou mesmo sobrepujar Psalm 9. Um dos pontos cruciais do disco é o adensamento de sua atmosfera, sem duvidas mais opressora e condenada que em Psalm 9.

The Skull deixou consideravelmente de lado a pegada mais arrastada e cadenciada que marcava as faixas mais densas de Psalm 9, investindo mais em composições de andamentos mais velozes e em tempos médios também. A fusão de elementos do Thrash e Power Metal com uma estética significativamente similar à do Black Sabbath em seus primeiros discos ainda é o foco da banda, embora a agressividade de outrora já não impressione tanto quando deveria e as transições de passagens arrastadas para as mais velozes parecem mais previsíveis e não dão às composições o mesmo gás do disco anterior.  O novo álbum foi concebido após o lançamento do single Assassin, que continha músicas presentes em Psalm 9 e da demo lançada em 1985, que curiosamente trazia composições que seriam utilizadas apenas dois anos depois, no bem visto Run To The Light, de 1987. As músicas “Gideon”, “The Wish” e “Wickedness Of Man” já haviam sido escritas antes mesmo do lançamento de Psalm 9, e aparecem como parte integrante de The Skull com modificações significativas, dada a evolução da banda.

A banda manteve-se unida desde o lançamento de Psalm 9, com Eric Wagner nos vocais, Bruce Franklin e Rick Wartell nas guitarras Sean McAllister no baixo e Jeff Olson na bateria. A parte lírica continua a expressar o posicionamento cristão da banda, porém enquanto Psalm 9 exaltava o amor de deus para com os homens, The Skull soa apocalíptico e esbanja insatisfação e ira. Tecnicamente, a sonoridade da banda está mais madura neste novo trabalho, que traz mais uma vez como destaque as guitarras e o genial Eric Wagner, que apresenta maior diversidade, arriscando-se com competência em timbres diferenciados. O frontman chega ao ápice nos versos líricos, onde mesmo expressando mensagens de cunho cristão, consegue transmitir decadência, condenação e desespero com uma força expressiva absurda. 

Bruce Franklin e Rick Wartell fizeram um trabalho memorável neste álbum. A influência do Black Sabbath retém-se quase em absoluto ao que foi feito nos álbuns Master Of Reality e Vol. 4. A entonação permanece grave e o peso não foi deixado de lado, mas dinâmica e os recursos utilizados seguem os direcionamentos apontados pela NWOBHM, principalmente no tocante aos solos e a utilização corriqueira de duals. A presença de passagens acústicas com maior destaque e certo toque neoclássico são exemplos de experimentações que funcionaram muito bem em The Skull, calcificando os trechos mais atmosféricos do áo cionaram muito bem em The Skull, calcificando os trechos mais atmosfericos . ade, arriscando-se com competencia lbum.

A bateria mantém o bom trabalho mostrado em Psalm 9, bem marcada e dando um seguimento eficaz à proposta da banda e ainda explosiva nas passagens mais agressivas. O baixo aparece com maior destaque neste álbum, com trechos bem encaixados onde ganha maior projeção, sendo também fundamental para a manutenção do peso constante presente no disco. Neste disco, notamos o uso discreto de sintetizadores, que em sua maioria, realçam as passagens mais melancólicas das composições. 

 “Pray For The Dead” abre o play de forma competente, mostrando uma impostação vocal diferente do que Eric Wagner apresentou no debut, assumindo uma entonação mais grave, que progressivamente ganha força e cresce de forma furiosa. A pegada Stoner mostra-se evidente, prendendo a composição num andamento marcado e ímpio, que após uma das típicas pontes da banda, verte em uma passagem agressiva, culminando num solo arrasador.

“Fear No Evil” é uma faixa agressiva, retomando os conceitos mais básicos do Heavy Metal Tradicional, simples, pesado e veloz, com uma excelente performance de Eric Wagner, com versos líricos poderosos. O trabalho das guitarras num geral, mas em especial no solo, mostra influências diretamente associada ao Judas Priest. Alguns traços sutis de Thrash Metal também se fazem presentes. 

A épica “The Wish”, uma epopéia com mais de onze minutos, representa com eficácia o que foi o Doom Metal durante a década de oitenta.  Seu início acústico estabelece uma atmosfera melancólica, reforçada pelos sintetizadores sutis ao fundo e impostação suave de Eric Wagner, saltando para um trecho marcado e pesado, evocando as raízes do Stoner em Master Of Reality. Um classico da banda e um dos pontos altos do disco, com transições muito bem encaixadas e elementos psicodélicos bastante sutis, mas que contribuem para o seu caráter viajante e introspectiva.

“The Truth Is/ The What Is” evoca a pegada Stoner de Master Of Reality, soando condenada, como deveria ser, mostrando também certos traços progressivos. Mantendo a fórmula bem sucedida das composições anteriores, a faixa chega ao seu desfecho após uma passagem de andamento mais veloz e agressivo. “Wickedness Of Man” tem uma construção similar à faixa anterior quanto ao conceito, valendo-se das influências do Stoner, fundamentadas pelo Black Sabbath em Master Of Reality. Há inclussive um riff construído de forma muito similar ao presente no hino Children Of The Grave. A bateria e o baixo têm destaque nesta faixa, trabalhando em conjunto de forma muito eficiente. Os backingvocals de Eric são um ponto de destaque na faixa, exaltando a ira contida em seus versos líricos. “Gideon” logo em seu riff inicial anuncia à que veio, agressiva e veloz, valendo-se das influências do Thrash e do Power Metal, presentes em Psalm 9, calcificadas pela bateria pujante de Jeff Olson.

A faixa título encerra o álbum em grande estilo. Uma passagem acústica reforça a melancolia dos vocais de Eric Wagner no início de “The Skull”, que se mantém arrastada e soturna, mesmo nas transições onde os riffs mais pesados e cadenciados se projetam. O trabalho das guitarras nesta faixa é fenomenal, contribuindo para a criação de uma atmosfera lúgubre e como de costume, Eric mostra-se em mais uma performance inspirada, assumindo um timbre diferente do usual. Como um dos elementos característicos do play, “The Skull” passa do cadenciado para o agressivo, chegando ao fim de forma enérgica. “The Skull” é o ponto alto do play, resgatando com maestria as características que marcaram Psalm 9 em uma composição clássica do Trouble.

O Trouble, assim como a maioria das bandas que se projeta como um conjunto fortemente influenciado pelo Black Sabbath, buscou distanciar-se um pouco desta classificação, tentando formular sua identidade de forma mais pessoal ao longo dos anos. Neste álbum, a banda mantém-se na linha entre o Proto-Doom e a NWOBHM, revelando também, de forma sucinta, uma pegada relacionada ao Stoner. The Skull deu continuidade à sonoridade da banda de forma muito competente e convenhamos que superar o seminal Psalm 9 não é tarefa das mais fáceis. Salientando que mais uma vez, a projeção do disco não foi a esperada. Com a popularização do Glam e a cena Thrash Metal da Bay Area, The Skull passou quase que despercebido, sem contar que o direcionamento cristão adotado pela banda sempre gerou certo preconceito.

Ficha Técnica
Full-lenght, Metal Blade Records
Março de 1985

Line- up
Eric Wagner - Vocais
Bruce Franklin - Guitarra
Rick Wartell - Guitarra
Sean McAllister - Baixo
Jeff Olson - Bateria

Produzido por Trouble e Bil Metoyer.

1. Pray for the Dead - 05:54
2. Fear No Evil - 04:12
3. The Wish - 11:35
4. Truth Is/What Is - 04:39
5. Wickedness of Man - 05:46
6. Gideon - 05:10
7. The Skull - 05:41