Run To The Light (1987)
The Skull marcou o início de uma problemática que se tornaria constante na carreira do Trouble pelos anos que estariam por vir. O álbum não havia tido a repercussão esperada e a banda entrava num grave conflito interno devido ao abuso de drogas por parte de Eric Wagner. Em seu segundo disco com o Trouble, o vocalista apresentou maior versatilidade em seu trabalho vocal, porém em Run To The Light seu declínio compromete em parte as composições da banda. No intervalo entre 1985 e 1987, ano de lançamento do terceiro álbum, Sean McAllister deixou o Trouble por conta dos conflitos constantes, sendo substituído por Ron Holzner e como se não fosse o suficiente, em 1986, Jeff Olson deixa a banda para lecionar música, tendo sido diplomado bacharel. As fontes que afirmam que a saída do baterista deveu-se ao fato dele ter se tornado pastor não são de procedência confiável, pois carecem de fontes concretas. Jeff foi substituído por Dennis Lesch, embora nunca tenha se afastado da banda de forma permanente.
A banda retornaria aos estúdios em 1987 para gravar seu terceiro disco. A verdade é que o Trouble se arrastava nessa época e devido a todos os problemas, era de se esperar que algo bem diferente (não de forma positiva) estaria por vir. Run To The Light perdeu a carga densa presente em toda a atmosfera de The Skull. No segundo disco da banda, víamos um Trouble menos furioso que em Psalm 9, já no terceiro registro, as influências do Thrash Metal estão omissas, discretas e as tradicionais mudanças de andamento que tomavam o ouvinte de surpresa ficaram na lembrança (atribuo isto ao fato de Jeff Olson já não comandar as baquetas no Trouble). O que restou então do velho Trouble? Restou o peso, as eternas influências. Em Run To The Light estão presentes músicas pesadas, cadenciadas, com equalizações de guitarra muito semelhantes às do Black Sabbath. A pegada Stoner e os toques psicodélicos sem dúvidas são as características mais pertinentes deste novo álbum. A temática cristã se mantém como direcionamento lírico da banda, que desta vez trata das consequências para a existência daqueles não acreditam no deus cristão. Vale ressaltar que o nível das composições neste álbum passa a dever em relação ao instrumental, que em resumo, parece previsível e em declínio se comparado aos trabalhos anteriores da banda, o que na verdade contribui para a fácil assimilação de seus sermões enfáticos.
Eric Wagner já não soa tão poderoso nos versos líricos e seus agudos soam por vezes débeis. O timbre grave e limpo que abrilhantou The Skull aparece também neste álbum e mais uma vez traz bons momentos aos ouvintes. Fica obvio a mudança no desempenho do frontman, pois a discrepância entre as performances apresentadas entre os álbuns anteriores e este é tremenda. Ainda assim, Eric Wagner é a voz do Trouble e mesmo deixando a desejar em alguns momentos, faz um trabalho muito competente.
As guitarras ainda estão pesadas, encorpadas e conservam a afinação grave e um timbre que enfatiza os médios. O som ainda é opressor e consegue manter-se agressivo mesmo na ausência das passagens mais velozes presentes nos álbuns anteriores. As influências neoclássicas e progressivas incitadas em The Skull se mostram mais evidentes agora. Os solos estão mais velozes e dotados de certo grau de virtuosismo. Ron Holzner faz o que deve fazer no baixo sem momentos muito expressivos.
Com Dennis Lesch na bateria, temos talvez o motivo para uma alteração tão perceptível na sonoridade do Trouble. Lesch faz um ótimo trabalho em suas viradas, mas enquanto Jeff Olson trazia a velocidade e agressividade da NWOBHM, Lesch parece buscar influências no Hard Rock setentista, o que cortou em parte o caráter abrasivo e desesperado das composições em passagens mais rápidas, o que não foi compensado nos momentos mais introspectivos e cadenciados. Os teclados, que estavam presentes ainda em The Skull, também estão em Run To The Light, ainda discretos e bem posicionados.
“The Misery Shows” abre o álbum com uma introdução produzida por sintetizadores, que aos poucos cede lugar para as guitarras em fade in, que tomam conta da faixa com seus riffs pesados, com as cavalgadas típicas da NWOBHM e também algo do Hard Rock. Excelente trabalho de Bruce Franklin e Rick Wartell. “Thinking Of The Past” associa outra vez ao som de Run To The Light as influências da NWOBHM e do Hard Rock, enfatizando seus ícones máximos, com um trabalho de guitarras que em muito remete ao Judas Priest e uma dinâmica muito semelhante à adotada pelo Iron Maiden em suas composições.
“On Borrowed Time” mostra em evidência os traços transcendentais de Run To The Light. A faixa tem inicio com um sintetizador bem discreto compactuando com a percussão e as guitarras, que em seguida executam sua adaptação para o terceiro movimento da sonata nº 2 para piano em Bm, de Chopin. A composição evidencia os traços Thrash e Stoner que marcarão o álbum, associados à ambiência opressiva do Doom Metal. Talvez nesta faixa as consequências do envolvimento de Eric com as drogas estejam mais perceptíveis, chegando a soar risível em certos momentos.
“Run To The Light” resgata elementos do Rock Psicodélico, oriundos diretamente do começo dos anos setenta e mostra isso logo em seu primeiro riff. As influências do Blues são evidentes, principalmente em seu solo, talvez o mais melódico executado pela banda em toda sua carreira até o momento. As partes mais pesadas alternam entre momentos cadenciados e outros com uma certa pegada de Thrash Metal, mas ambos refletem a aura condenada presente na faixa título. “Run To The Light” é uma composição extremamente melancólica e mostra um apanhado geral de tudo que é este terceiro álbum da banda.
“Piece Of Mind” traz mais das influências dos Hard Rock dos anos setenta com sutis traços progressivos. As mesmas características mostram-se de certa forma também em “Born In A Prison”, que embora apresente passagens mais agressivas, carece da violência aplicada por Jeff Olson nos álbuns anteriores. Suas passagens mais arrastadas remetem diretamente à Psalm 9. As guitarras em dual e o riff formado do mais puro Stoner, seguido de um solo melódico, que transita da calmaria à rapidez, são os momentos marcantes desta composição. Um dos grandes momentos de Run To The light, evocando a glória do debut do Trouble.
“Tuesday’s Child” assim como as faixas anteriores, assimila as influências da NWOBHM com o Hard Rock e o Rock Psicodélico, em um dos momentos menos inspirados de Eric Wagner, que mostra um desempenho bem abaixo das expectativas. A própria faixa em si, mostra-se bem previsível e simplista, sem muito a adicionar ao play.
“The Beginning” tem um começo sombrio e melancólico, que antecede uma passagem mais pesada e cadenciada. Em seu primeiro break, aguardamos um dos usais petardos propiciados por Jeff Olson, porém estes momentos permanecem apenas na lembrança. A música segue arrastada e diferenciada do habitual ate seu solo estranhamente marcado pelos crashs de Dennis Lesch. A música deslancha apenas em seu final, com o mesmo caráter soturno de seu início, realçado pelos teclados ao fundo e vai progredindo, encerrando-se de forma estranha.
Mesmo com todos os problemas aparentes, o Trouble, como referência exaltada pelos adoradores do Doom Metal esbanja competência e não decepciona. Mais uma vez trazem ao mundo um álbum de extrema importância para o Stoner/Doom e que embora se mostre inferior aos seus antecessores, mantém a qualidade e continua a honrar o lendário nome Trouble e uma vez mais, propaga-se na instância do underground.
Ficha Técnica
Full-lenght, Metal Blade Records
15 de Junho de 1987
Line- up
Eric Wagner - Vocais
Bruce Franklin - Guitarra
Rick Wartell - Guitarra
Ron Holzner - Baixo
Dennis Lesch - Bateria
1. The Misery Shows - 5:33
2. Thinking of the Past - 3:51
3. On Borrowed Time - 5:25
4. Run to the Light - 5:58
5. Peace of Mind - 3:01
6. Born in a Prison - 4:45
7. Tuesday's Child - 3:28
8. The Beginning - 5:22
2. Thinking of the Past - 3:51
3. On Borrowed Time - 5:25
4. Run to the Light - 5:58
5. Peace of Mind - 3:01
6. Born in a Prison - 4:45
7. Tuesday's Child - 3:28
8. The Beginning - 5:22

