quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Trouble - Parte III

Run To The Light (1987)


The Skull marcou o início de uma problemática que se tornaria constante na carreira do Trouble pelos anos que estariam por vir. O álbum não havia tido a repercussão esperada e a banda entrava num grave conflito interno devido ao abuso de drogas por parte de Eric Wagner. Em seu segundo disco com o Trouble, o vocalista apresentou maior versatilidade em seu trabalho vocal, porém em Run To The Light seu declínio compromete em parte as composições da banda. No intervalo entre 1985 e 1987, ano de lançamento do terceiro álbum, Sean McAllister deixou o Trouble por conta dos conflitos constantes, sendo substituído por Ron Holzner e como se não fosse o suficiente, em 1986, Jeff Olson deixa a banda para lecionar música, tendo sido diplomado bacharel. As fontes que afirmam que a saída do baterista deveu-se ao fato dele ter se tornado pastor não são de procedência confiável, pois carecem de fontes concretas. Jeff foi substituído por Dennis Lesch, embora nunca tenha se afastado da banda de forma permanente.

A banda retornaria aos estúdios em 1987 para gravar seu terceiro disco. A verdade é que o Trouble se arrastava nessa época e devido a todos os problemas, era de se esperar que algo bem diferente (não de forma positiva) estaria por vir. Run To The Light perdeu a carga densa presente em toda a atmosfera de The Skull. No segundo disco da banda, víamos um Trouble menos furioso que em Psalm 9, já no terceiro registro, as influências do Thrash Metal estão omissas, discretas e as tradicionais mudanças de andamento que tomavam o ouvinte de surpresa ficaram na lembrança (atribuo isto ao fato de Jeff Olson já não comandar as baquetas no Trouble). O que restou então do velho Trouble? Restou o peso, as eternas influências. Em Run To The Light estão presentes músicas pesadas, cadenciadas, com equalizações de guitarra muito semelhantes às do Black Sabbath. A pegada Stoner e os toques psicodélicos sem dúvidas são as características mais pertinentes deste novo álbum. A temática cristã se mantém como direcionamento lírico da banda, que desta vez trata das consequências para a existência daqueles não acreditam no deus cristão. Vale ressaltar que o nível das composições neste álbum passa a dever em relação ao instrumental, que em resumo, parece previsível e em declínio se comparado aos trabalhos anteriores da banda, o que na verdade contribui para a fácil assimilação de seus sermões enfáticos.

Eric Wagner já não soa tão poderoso nos versos líricos e seus agudos soam por vezes débeis. O timbre grave e limpo que abrilhantou The Skull aparece também neste álbum e mais uma vez traz bons momentos aos ouvintes. Fica obvio a mudança no desempenho do frontman, pois a discrepância entre as performances apresentadas entre os álbuns anteriores e este é tremenda. Ainda assim, Eric Wagner é a voz do Trouble e mesmo deixando a desejar em alguns momentos, faz um trabalho muito competente. 

As guitarras ainda estão pesadas, encorpadas e conservam a afinação grave e um timbre que enfatiza os médios. O som ainda é opressor e consegue manter-se agressivo mesmo na ausência das passagens mais velozes presentes nos álbuns anteriores. As influências neoclássicas e progressivas incitadas em The Skull se mostram mais evidentes agora. Os solos estão mais velozes e dotados de certo grau de virtuosismo. Ron Holzner faz o que deve fazer no baixo sem momentos muito expressivos.

Com Dennis Lesch na bateria, temos talvez o motivo para uma alteração tão perceptível na sonoridade do Trouble. Lesch faz um ótimo trabalho em suas viradas, mas enquanto Jeff Olson trazia a velocidade e agressividade da NWOBHM, Lesch parece buscar influências no Hard Rock setentista, o que cortou em parte o caráter abrasivo e desesperado das composições em passagens mais rápidas, o que não foi compensado nos momentos mais introspectivos e cadenciados.  Os teclados, que estavam presentes ainda em The Skull, também estão em Run To The Light, ainda discretos e bem posicionados.

“The Misery Shows” abre o álbum com uma introdução produzida por sintetizadores, que aos poucos cede lugar para as guitarras em fade in, que tomam conta da faixa com seus riffs pesados, com as cavalgadas típicas da NWOBHM e também algo do Hard Rock. Excelente trabalho de Bruce Franklin e Rick Wartell. “Thinking Of The Past” associa outra vez ao som de Run To The Light as influências da NWOBHM e do Hard Rock, enfatizando seus ícones máximos, com um trabalho de guitarras que em muito remete ao Judas Priest e uma dinâmica muito semelhante à adotada pelo Iron Maiden em suas composições.

“On Borrowed Time” mostra em evidência os traços transcendentais de Run To The Light. A faixa tem inicio com um sintetizador bem discreto compactuando com a percussão e as guitarras, que em seguida executam sua adaptação para o terceiro movimento da sonata nº 2 para piano em Bm, de Chopin. A composição evidencia os traços Thrash e Stoner que marcarão o álbum, associados à ambiência opressiva do Doom Metal. Talvez nesta faixa as consequências do envolvimento de Eric com as drogas estejam mais perceptíveis, chegando a soar risível em certos momentos.

“Run To The Light” resgata elementos do Rock Psicodélico, oriundos diretamente do começo dos anos setenta e mostra isso logo em seu primeiro riff. As influências do Blues são evidentes, principalmente em seu solo, talvez o mais melódico executado pela banda em toda sua carreira até o momento. As partes mais pesadas alternam entre momentos cadenciados e outros com uma certa pegada de Thrash Metal, mas ambos refletem a aura condenada presente na faixa título. “Run To The Light” é uma composição extremamente melancólica e mostra um apanhado geral de tudo que é este terceiro álbum da banda. 

“Piece Of Mind” traz mais das influências dos Hard Rock dos anos setenta com sutis traços progressivos. As mesmas características mostram-se de certa forma também em “Born In A Prison”, que embora apresente passagens mais agressivas, carece da violência aplicada por Jeff Olson nos álbuns anteriores. Suas passagens mais arrastadas remetem diretamente à Psalm 9. As guitarras em dual e o riff formado do mais puro Stoner, seguido de um solo melódico, que transita da calmaria à rapidez, são os momentos marcantes desta composição. Um dos grandes momentos de Run To The light, evocando a glória do debut do Trouble.

“Tuesday’s Child” assim como as faixas anteriores, assimila as influências da NWOBHM com o Hard Rock e o Rock Psicodélico, em um dos momentos menos inspirados de Eric Wagner, que mostra um desempenho bem abaixo das expectativas. A própria faixa em si, mostra-se bem previsível e simplista, sem muito a adicionar ao play.

“The Beginning” tem um começo sombrio e melancólico, que antecede uma passagem mais pesada e cadenciada. Em seu primeiro break, aguardamos um dos usais petardos propiciados por Jeff Olson, porém estes momentos permanecem apenas na lembrança. A música segue arrastada e diferenciada do habitual ate seu solo estranhamente marcado pelos crashs de Dennis Lesch. A música deslancha apenas em seu final, com o mesmo caráter soturno de seu início, realçado pelos teclados ao fundo e vai progredindo, encerrando-se de forma estranha.

Mesmo com todos os problemas aparentes, o Trouble, como referência exaltada pelos adoradores do Doom Metal esbanja competência e não decepciona. Mais uma vez trazem ao mundo um álbum de extrema importância para o Stoner/Doom e que embora se mostre inferior aos seus antecessores, mantém a qualidade e continua a honrar o lendário nome Trouble e uma vez mais, propaga-se na instância do underground.

Ficha Técnica
Full-lenght, Metal Blade Records
15 de Junho de 1987

Line- up
Eric Wagner - Vocais
Bruce Franklin - Guitarra
Rick Wartell - Guitarra
Ron Holzner - Baixo
Dennis Lesch - Bateria

1. The Misery Shows - 5:33
2. Thinking of the Past - 3:51
3. On Borrowed Time - 5:25
4. Run to the Light - 5:58
5. Peace of Mind - 3:01
6. Born in a Prison - 4:45
7. Tuesday's Child - 3:28
8. The Beginning - 5:22

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Trouble - Parte II

The Skull (1985)




Com Psalm 9, o Trouble atingiu o patamar de banda fundamental na genealogia do Doom Metal, trazendo novos conceitos e gerando tendências. O sucessor do aclamado debut viria no ano seguinte ao seu lançamento.  The Skull, originalmente lançado em Março de 1985 não conseguiu manter o nível de qualidade do primeiro full-lenght da banda.  Os elementos marcantes de Psalm 9 estão todos presentes, mas The Skull soa como uma repetição do álbum anterior, sem inovar ou mesmo trazer contribuições significativas para o que já vinha sendo feito na época.  É importante deixar claro que The Skull é um grande álbum, embora não consiga igualar-se ou mesmo sobrepujar Psalm 9. Um dos pontos cruciais do disco é o adensamento de sua atmosfera, sem duvidas mais opressora e condenada que em Psalm 9.

The Skull deixou consideravelmente de lado a pegada mais arrastada e cadenciada que marcava as faixas mais densas de Psalm 9, investindo mais em composições de andamentos mais velozes e em tempos médios também. A fusão de elementos do Thrash e Power Metal com uma estética significativamente similar à do Black Sabbath em seus primeiros discos ainda é o foco da banda, embora a agressividade de outrora já não impressione tanto quando deveria e as transições de passagens arrastadas para as mais velozes parecem mais previsíveis e não dão às composições o mesmo gás do disco anterior.  O novo álbum foi concebido após o lançamento do single Assassin, que continha músicas presentes em Psalm 9 e da demo lançada em 1985, que curiosamente trazia composições que seriam utilizadas apenas dois anos depois, no bem visto Run To The Light, de 1987. As músicas “Gideon”, “The Wish” e “Wickedness Of Man” já haviam sido escritas antes mesmo do lançamento de Psalm 9, e aparecem como parte integrante de The Skull com modificações significativas, dada a evolução da banda.

A banda manteve-se unida desde o lançamento de Psalm 9, com Eric Wagner nos vocais, Bruce Franklin e Rick Wartell nas guitarras Sean McAllister no baixo e Jeff Olson na bateria. A parte lírica continua a expressar o posicionamento cristão da banda, porém enquanto Psalm 9 exaltava o amor de deus para com os homens, The Skull soa apocalíptico e esbanja insatisfação e ira. Tecnicamente, a sonoridade da banda está mais madura neste novo trabalho, que traz mais uma vez como destaque as guitarras e o genial Eric Wagner, que apresenta maior diversidade, arriscando-se com competência em timbres diferenciados. O frontman chega ao ápice nos versos líricos, onde mesmo expressando mensagens de cunho cristão, consegue transmitir decadência, condenação e desespero com uma força expressiva absurda. 

Bruce Franklin e Rick Wartell fizeram um trabalho memorável neste álbum. A influência do Black Sabbath retém-se quase em absoluto ao que foi feito nos álbuns Master Of Reality e Vol. 4. A entonação permanece grave e o peso não foi deixado de lado, mas dinâmica e os recursos utilizados seguem os direcionamentos apontados pela NWOBHM, principalmente no tocante aos solos e a utilização corriqueira de duals. A presença de passagens acústicas com maior destaque e certo toque neoclássico são exemplos de experimentações que funcionaram muito bem em The Skull, calcificando os trechos mais atmosféricos do áo cionaram muito bem em The Skull, calcificando os trechos mais atmosfericos . ade, arriscando-se com competencia lbum.

A bateria mantém o bom trabalho mostrado em Psalm 9, bem marcada e dando um seguimento eficaz à proposta da banda e ainda explosiva nas passagens mais agressivas. O baixo aparece com maior destaque neste álbum, com trechos bem encaixados onde ganha maior projeção, sendo também fundamental para a manutenção do peso constante presente no disco. Neste disco, notamos o uso discreto de sintetizadores, que em sua maioria, realçam as passagens mais melancólicas das composições. 

 “Pray For The Dead” abre o play de forma competente, mostrando uma impostação vocal diferente do que Eric Wagner apresentou no debut, assumindo uma entonação mais grave, que progressivamente ganha força e cresce de forma furiosa. A pegada Stoner mostra-se evidente, prendendo a composição num andamento marcado e ímpio, que após uma das típicas pontes da banda, verte em uma passagem agressiva, culminando num solo arrasador.

“Fear No Evil” é uma faixa agressiva, retomando os conceitos mais básicos do Heavy Metal Tradicional, simples, pesado e veloz, com uma excelente performance de Eric Wagner, com versos líricos poderosos. O trabalho das guitarras num geral, mas em especial no solo, mostra influências diretamente associada ao Judas Priest. Alguns traços sutis de Thrash Metal também se fazem presentes. 

A épica “The Wish”, uma epopéia com mais de onze minutos, representa com eficácia o que foi o Doom Metal durante a década de oitenta.  Seu início acústico estabelece uma atmosfera melancólica, reforçada pelos sintetizadores sutis ao fundo e impostação suave de Eric Wagner, saltando para um trecho marcado e pesado, evocando as raízes do Stoner em Master Of Reality. Um classico da banda e um dos pontos altos do disco, com transições muito bem encaixadas e elementos psicodélicos bastante sutis, mas que contribuem para o seu caráter viajante e introspectiva.

“The Truth Is/ The What Is” evoca a pegada Stoner de Master Of Reality, soando condenada, como deveria ser, mostrando também certos traços progressivos. Mantendo a fórmula bem sucedida das composições anteriores, a faixa chega ao seu desfecho após uma passagem de andamento mais veloz e agressivo. “Wickedness Of Man” tem uma construção similar à faixa anterior quanto ao conceito, valendo-se das influências do Stoner, fundamentadas pelo Black Sabbath em Master Of Reality. Há inclussive um riff construído de forma muito similar ao presente no hino Children Of The Grave. A bateria e o baixo têm destaque nesta faixa, trabalhando em conjunto de forma muito eficiente. Os backingvocals de Eric são um ponto de destaque na faixa, exaltando a ira contida em seus versos líricos. “Gideon” logo em seu riff inicial anuncia à que veio, agressiva e veloz, valendo-se das influências do Thrash e do Power Metal, presentes em Psalm 9, calcificadas pela bateria pujante de Jeff Olson.

A faixa título encerra o álbum em grande estilo. Uma passagem acústica reforça a melancolia dos vocais de Eric Wagner no início de “The Skull”, que se mantém arrastada e soturna, mesmo nas transições onde os riffs mais pesados e cadenciados se projetam. O trabalho das guitarras nesta faixa é fenomenal, contribuindo para a criação de uma atmosfera lúgubre e como de costume, Eric mostra-se em mais uma performance inspirada, assumindo um timbre diferente do usual. Como um dos elementos característicos do play, “The Skull” passa do cadenciado para o agressivo, chegando ao fim de forma enérgica. “The Skull” é o ponto alto do play, resgatando com maestria as características que marcaram Psalm 9 em uma composição clássica do Trouble.

O Trouble, assim como a maioria das bandas que se projeta como um conjunto fortemente influenciado pelo Black Sabbath, buscou distanciar-se um pouco desta classificação, tentando formular sua identidade de forma mais pessoal ao longo dos anos. Neste álbum, a banda mantém-se na linha entre o Proto-Doom e a NWOBHM, revelando também, de forma sucinta, uma pegada relacionada ao Stoner. The Skull deu continuidade à sonoridade da banda de forma muito competente e convenhamos que superar o seminal Psalm 9 não é tarefa das mais fáceis. Salientando que mais uma vez, a projeção do disco não foi a esperada. Com a popularização do Glam e a cena Thrash Metal da Bay Area, The Skull passou quase que despercebido, sem contar que o direcionamento cristão adotado pela banda sempre gerou certo preconceito.

Ficha Técnica
Full-lenght, Metal Blade Records
Março de 1985

Line- up
Eric Wagner - Vocais
Bruce Franklin - Guitarra
Rick Wartell - Guitarra
Sean McAllister - Baixo
Jeff Olson - Bateria

Produzido por Trouble e Bil Metoyer.

1. Pray for the Dead - 05:54
2. Fear No Evil - 04:12
3. The Wish - 11:35
4. Truth Is/What Is - 04:39
5. Wickedness of Man - 05:46
6. Gideon - 05:10
7. The Skull - 05:41

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Trouble - Parte I

Com o fim dos anos setenta, o cenário underground europeu presenciava a ascensão do Punk Rock e o declínio do Heavy Metal. A NWOBHM surgiu com a intenção de revitalizar a música pesada, gerando novos conceitos e tendências.  Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, surgia no derradeiro ano daquela mesma década, na cidade de Chigaco, Illinois, o Trouble.

Com uma proposta diferente do que previa a NWOBHM, a banda americana buscava referências nas raízes do Heavy Metal, numa roupagem setentista, assimilando muito da velha guarda do Metal, assim como do Rock Psicodélico. Embora no começo dos anos oitenta o Metal tenha vivido um período de progresso significativo, bandas como Pentagram, Witchfinder General, e tantas outras que direcionavam sua criatividade musical para um retorno aos valores dos anos setenta, nunca saíram do underground e durante toda sua carreira, jamais chegaram a obter grande retorno comercial. Com o Trouble não foi diferente.

Originado em 1979 pelo vocalista Eric Wagner, o Trouble fez história entre os adeptos do Doom e do Stoner, com seu estilo retrô, riffs cadenciados, proporcionados por afinações graves, que originavam timbres densos e sombrios em músicas arrastadas, embora dotadas de um vigor nunca visto anteriormente. Ao lado de Saint Vitus, The Obsessed e das outras lendas do metal condenado, o Trouble resgatou os primórdios do Metal e o resignificou, originando uma sonoridade inovadora, influência indubitável para as futuras gerações de bandas de Doom Metal que estariam por vir.   

Com Eric Wagner nos vocais, Bruce Franklin e Rick Wartell nas guitarras, Ian Brown no baixo e Jeff Olson na bateria, o Trouble tinha sua primeira formação. A proposta da banda, a principio, não se enquadrava em muito do que era produzido pelos demais grupos de Metal contemporâneo seus. Enquanto a maioria dos novos projetos que surgiam colocavam o foco em andamentos mais velozes em suas músicas, o Trouble tencionava para tempos médios, em composições mais arrastadas, de riffs mais cadenciados, tendo como principal influência, o Proto-Doom executado pelo Black Sabbath. Os anos oitenta contribuíram para a sonoridade do Trouble no tocante à timbres. Ao invés do usual Fuzz Box, extensamente explorado durante os anos setenta, os resultados arrojados obtidos por bandas como Iron Maiden e Judas Priest com seus timbres abrasivos de guitarra, encorajaram o Trouble a adicionar à sua música diferentes distorções, potencializadas por sua grave afinação (D), resultando num som denso, sombrio e condenado. O Stoner presente em Master Of Reality e as influências do Rock Psicodélico em Black Sabbath e Paranoid foram assimilados durante a construção da identidade musical da banda.

 Eric Wagner e Bruce Franklin - 1984

Nos primeiros meses de formação, a banda ensaiava arduamente suas composições, mesclando influências de bandas como Deep Purple, Black Sabbath, Led Zeppelin e Budgie. No começo da década de oitenta, a banda lança de forma independente, seu primeiro registro, contendo três faixas. Os primeiros anos da década de oitenta marcaram apresentações pelo Centro – Oeste do país. Em 1982, viria o segundo registro da banda, trazendo composições que integrariam a track list de seu debut. No ano seguinte, Ian Brown deixa a banda, sendo substituído por Sean McAllister. O baixista deixa como último registro, o enérgico álbum ao vivo de 1983. Ainda neste ano, o Trouble viria com mais um lançamento independente, mais uma demo, contendo duas faixas. Com uma sonoridade madura e bem definida, a banda consegue por fim, assinar com a gravadora Metal Blade Records, que ganhava projeção nesta época, após revelar nomes como Metallica, Possessed e Overkill, com a coletânea Metal Massacre Vol. I.

Psalm 9 (1984)


Em 1984, de contrato assinado com a Metal Blade Records, o Trouble entraria em estúdio para a gravação de seu debut. As composições foram se construindo ao longo dos anos e o resultado final foi o que já era de se esperar ao ouvir o Live de 1983, um debut clássico.  Em Fevereiro daquele ano, nos estúdios da Track Records, em Los Angeles, Psalm 9 ganharia forma. A formação permanecia a mesma da demo do ano anterior, com  Eric Wagner nos vocais, Bruce Franklin e Rick Wartell nas guitarras Sean McAllister no baixo e Jeff Olson na bateria.

Psalm 9 é uma obra prima, fundamentalmente enérgico, sombrio e como não poderia deixar de ser, pesado. Com uma atmosfera densa, o play é cheio de passagens arrastadas, porém seus excelentes riffs tomam o ouvinte de surpresa, muito bem encaixados ao longo do álbum, revelando uma dinâmica associada ao Thrash Metal, de bandas clássicas como Metallica e Slayer, que neste período estavam em ascensão. A agressividade das guitarras faz um contraponto com os vocais abrasivos de Eric Wagner, atribuindo ainda mais agressividade às composições, associando estes fatores como herança direta a alguns dos conceitos da NWOBHM.

Os vocais de Eric Wagner diferem consideravelmente dos timbres anasalados e dementes de vocalistas como Zeeb Parkes, Bobby Liebling e obviamente, do Madman, Ozzy Osbourne. Com seus poderosos versos líricos  e suas guinadas fenomenais, o frontman associa os conceitos trabalhados pela NWOBHM numa linha entre o Power e o Thrash Metal.  O reverb aplicado à sua voz confere um aspecto sombrio e ímpio às composições de Psalm 9.

As guitarras mostram-se muito bem construídas, com melodias fortes e fundamentadas. O timbre aplicado por Bruce Franklin e Rick Wartell  confere versatilidade, fazendo com que seus instrumentos soem de forma atual, embora revitalizem aspectos oriundos da década de setenta em suas músicas. As bases esbanjam influências do Thrash Metal, dotadas de velocidade e agressividade, oferecendo às composições um caráter único, que se impõe com autoridade, ora denso e cadenciado com seus riffs abafados, ora abrasivo e violento. Os solos ajustam-se a essa estrutura, valendo-se de tappings, técnica amplamente explorada pelos guitarristas durante e após NWOBHM, legatos e longos vibratos, também variando entre passagens mais arrastadas quanto em verdadeiros assaltos, que tomam o ouvinte de surpresa.
O trabalho de Sean McAllister é contido, porém eficaz. Sem grandes momentos, o baixo executa as mesmas notas que a guitarra, porém seu peso contribuí para a atmosfera pesarosa do debut. A bateria, por conta de Jeff Olson, é um ponto de destaque em Psalm 9. Os grooves e pedais duplos marcam o álbum, preenchendo as músicas com eficácia e dialogando perfeitamente com a harmonia soturna desenvolvida pelos demais instrumentistas .

O álbum inicia com “The Tempter”, estabelecendo de pronto uma atmosfera mística e espiritual que permeia todo o desenrolar do álbum, cedendo espaço para riffs que expressam a genialidade do Black Sabbath em seus primeiros álbuns, partindo em seguida para uma levada insana e inesperada, liberando a fúria das influências do Thrash Metal. “The Temper” consegue sintetizar as influências de Psalm 9 perfeitamente, prenunciando um álbum enérgico, espontâneo e destruidor. Dos riffs iniciais ao seu solo, marcado por uma base fortemente direcionada ao Stoner, a faixa mostra versatilidade do conjunto e explicita a proposta lírica direcionada ao cristianismo.

“Assassin” retoma as influências da NWOBHM, com riffs poderosos, com mais de Vol.4 e Master Of Reality, expressando ainda traços de Power Metal em seu formato, reafirmados pelos vocais pujantes de Eric . “Victim Of The Insane” arrasta-se numa progressão condenada, de riffs graves e cadenciados, realçada por harmonizações sutis com colações precisas de timbre. O timbre dramático de Eric Wagner é determinante nesta faixa, transmitindo uma sensaão de condenação eminente, tendo um discreto órgão ao fundo, nas bases.  Após um solo bem construído, a faixa inicia uma passagem marcada, com mais traços evidentes das influências de Stoner, anunciando uma outra passagem, mais agressiva e veloz, conduzindo-a ao fim. 

“Revalation (Life Or Death)” tem muito da pegada cadenciada do Black Sabbath em Master Of Reality. “Bastards Will Pay” começa agressiva, com uma impostação vocal de Eric Wagner que transmite toda a ira e revolta que sua letra almeja expressar. Com um dos melhores solos do disco, a composição alterna do cadenciado aos grooves, mostrando a versatilidade e competência do Trouble. Destaque para o trabalho de Bruce Franklin, Rick Wartell e claro, Jeff Olson.

“The Fall Of Lúcifer” mostra uma pegada mais voltada para o Heavy Metal Tradicional, mantendo o peso e cadencia do álbum. A instrumental “Endtime” têm um inicio quebrado, partindo para passagens com influências de Stoner, com riffs pesados e grooves bem encaixados. Uma excelente composição, que sintetiza com maestria a genialidade aplicada à Psalm 9.

A faixa-título é um verdadeiro clássico. Os versos narrados de Eric Wagner dão início a “Psalm 9” e logo em seguida, temos mais riffs cadenciados, gerando uma base pesada, típica do Sotner, em contraste a frases mais agudas. Apresentando ainda passagens com influências do Thrash Metal e cadencias embasadas por Master Of Reality, a composição implícita o direcionamento lírico e ideológico do Trouble, em total submissão ao deus cristão. A faixa chega ao fim com a contraditória frase “God loves us all”.

“Tales Of Brave Ullyses” fecha o álbum. A música é um cover da banda inglesa Cream, e traz um Hard Rock sessentista, evidenciando em parte as influências do Rock Psicodélico que o Trouble viria a assimilar em sua sonoridade anos depois.

Psalm 9 é um álbum seminal, não apenas por atribuir uma nova leitura aos elementos que o Black Sabbath deixou como herança às futuras gerações, mas por sua importância para a formação da sonoridade do Doom Metal como hoje conhecemos. O leque de bandas influenciadas por este trabalho é dos mais vastos , o primeiro passo para a consolidação do Trouble como uma das lendas da vertente condenada do Metal. Psalm 9 foi um álbum à frente de seu tempo, associando o Doom Metal Tradicional aos então recém surgidos Thrash e Power Metal.

Ficha Técnica
Full-lenght, Metal Blade Records
Março de 1984

Line- up
Eric Wagner - Vocais
Bruce Franklin - Guitarra
Rick Wartell - Guitarra
Sean McAllister - Baixo
Jeff Olson - Bateria

Produzido por Trouble, Bil Metoyer e Brian Slagel.

1.The Tempter - 06:37
2.Assassin - 03:13
3.Victim Of The Insane - 05:10
4.Revelation (Life Or Death) - 05:06
5.Bastards Will Pay - 03:43
6.The Fall Of Lucifer - 05:54
7.Endtime - 04:59
8.Psalm 9 - 04:49

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Witchfinder General - Parte Final

Friends Of Hell (1983)



Em 1983, o Witchfinder General dá continuidade a sua produção, com uma nova formação, composta por Zeeb Parkes nos vocais, Phil Cope nas guitarras, Rod Hawkes no baixo e Graham Ditchfield na bateria. O intitulado Friends Of Hell trouxe não só um novo line up, mas também uma nova sonoridade em relação ao seu antecessor. Os elementos que fundamentaram o som da banda ainda se fazem presentes, porém o cunho mais sombrio de suas composições foi deixado um pouco de lado, o que de certo modo atribuiu ao Witchfinder General uma busca por uma identidade mais afirmada, tornando-o já não tão similar ao Black Sabbath dos primeiros anos da década de setenta. Definitivamente, o Stoner presente no material que antecedeu Death Penalty já não configura o novo direcionamento da banda. Há algo do Rock Psicodélico e é notório que a ambientação soturna e pesarosa cedeu espaço para um viés mais enérgico e vibrante.

Friends Of Hell é um álbum peculiar, grandioso por si só, mas de pontos negativos consideráveis. O conjunto da obra parece estranho e mal organizado. Suas composições têm muito do Vol. 4 do Black Sabbath, o que não significa que algo de excepcional possa ser encontrado no álbum. Na verdade, Friends Of Hell é um álbum fraco se comparado à discografia do Witchfinder General, e ainda mais fraco se posto diante dos discos de outras bandas seminais do Doom Metal Tradicional. Apesar dos pesares, o play traz um Witchfinder General mais coeso, com uma sonoridade mais amadurecida, embora ainda apresente traços de uma busca por sua própria identidade. O registro por vezes se perde de forma inexplicável, principalmente por composições mais experimentais em relação à Death Penalty, à exemplos da enfadonha “Music” e da balada “I Lost You”. As composições são menores se comparadas ao play anterior, o que num geral, também contribuí para que o disco seja inferior ao debut, chegando ao fim sem deixar muito claras suas intenções entre um novo direcionamento ou apenas algo similar a um experimento. A produção é bem melhor que a do debut, muito boa inclusive para sua época.

Os vocais de Zeeb Parkes soam menos ansalados e sofríveis que em Death Penalty, com um timbre mais limpo e de maior entendimento, méritos da produção do disco. Em contraponto, os versos líricos mais agressivos e irônicos foram deixados para trás. Zeeb Parkes mostra clara evolução em suas performances, embora ainda com um timbre que muito remeta à Ozzy e Bob Liebling. Em Friends Of Hell, o frontman mostra um direcionamento mais sucinto, com um impostamento singular e de funcionalidade própria em relação às guitarras, embora pareça repetir-se constantemente.

As guitarras de Phil Cope assumem uma certa pegada do Hard Rock e mostram uma evolução quanto aos métodos de composição, esbanjando profissionalismo. A produção do álbum, bem superior à Death Penalty, ressalta o instrumento como carro chefe do álbum, e não poderia ser diferente, Phil Cope tem em Friends Of Hell mais solidez e coesão, embora seus riffs e solos não sejam suficientes para conferir uma unidade ao disco, mas ainda assim, traduzem bem a proposta da banda, engajados numa linha entre o Heavy Metal da NWOBHM e o Doom Metal Tradicional. O timbre das guitarras ainda é pesado e ainda mais claro que em Death Penalty. O baixo está bem mais audível e tem destaque em boa parte das faixas, assim como bateria também mostra sinais de evolução, embora ainda se retenha ao básico.

A parte lírica passou por um processo significativo de evolução, mostrando letras bem superiores às do debut, o que não significa que tenhamos agora algo bom em definitivo. O mote Sexo, Drogas&Rock ‘n Roll foi deixado um pouco de lado pela banda, que agora varia desde letras mais saudosistas e engajadas às mais “deslocadas”, como a metalingüística “Music”. O caráter sombrio se mantém presente nas músicas de maior destaque do play, abordando ainda o ocultismo, a morte e as trevas. A interação entre Phil Cope e Zeeb Parkes é o que faz deste um bom álbum e esta dinâmica é justamente o que segura as pontas no play, já que sonoridade da banda sofreu alterações drásticas e estas por sua vez, não foram das melhores. Friends Of Hell é inegavelmente inferior ao brilhante Soviet Invasion e ao bom debut dos ingleses.

A capa, como não poderia deixar de ser, é mais uma vez responsável por gerar grande polêmica. Repetindo o feito de Death Penalty, mostra modelos sensuais no papel de feiticeiras, sendo perseguidas, pelos próprios integrantes da banda num cemitério, tendo uma igreja como plano de fundo. E claro, não poderiam faltar os seios à mostra. Até mesmo em sua arte de capa, Friends Of Hell deixa um pouco de lado a atmosfera de Death Penalty. O verso do disco mostra a desconstrução da cena anteriormente citada, com as modelos interagindo com os integrantes da banda, ressaltando uma viatura policial e uma ambulância, deixando expresso o direcionamento mais despojado do disco.
O álbum foi gravado em Março de 1983, no Horizon Studios em Coventry, e o processo de gravação durou duas semanas, com a produção de Robion George, tendo Dave Lester como engenheiro de som.

“Love On A Smack”, tipicamente setentista, começa com uma pegada mais Hard Rock, com um refrão interessante e um ótimo solo de guitarra que quebra o andamento da música em determinado ponto, resultando numa dinâmica que merece nota, partindo então para mais uma ótima execução de Phil Cope, enquanto Zeeb Parkes retoma o refrão. A música chega ao fim com os versos condenados do destino fadado de uma personagem que encontra na morte a melhor saída para sua vida de promiscuidade. Os backing vocals finais atribuíram certo brilho à composição. Um bom começo para o segundo álbum dos ingleses.

“Last Chance” soa como uma tentativa de repetir o brilhantismo contido em Death Penalty. A música é uma das faixas em potencial do álbum, porém lhe faltam tanto a pegada mais eufórica da NWOBHM quanto os aspectos mais sombrios herdados do Black Sabbath, resultando em mais de um Hard Rock setentista.

A enfadonha “Music” dá continuidade ao álbum, que começa a revelar sua instabilidade, com uma composição de direcionamento mainstream, que não traz nada que possa ser acrescentado positivamente, com um instrumental sacal e às vezes irritante, principalmente por conta do baixo, que assume um aspecto típico da Disco Music e uma linha vocal que parece ter sido construída exatamente em cima disto. Indubitavelmente, “Music” tem algo de tendencioso, parecendo realmente um apelo comercial, cheio de clichês que talvez, tencionem para um direcionamento a um público maior e consideravelmente distante dos verdadeiros fãs da banda.

Posicionar “Music” anteriormente à faixa-título a torna ainda menos expressiva. “Friends Of Hell” é sem dúvidas um dos clássicos do álbum, com riffs interessantes e um baixo bem expressivo, de direcionamento completamente diferente ao da faixa anterior, estabelecendo uma base solida para as frases melódicas de Phil Cope. A música chega ao fim numa breve passagem acústica.

“Requiem For Youth” começa agressiva, prenunciando um direcionamento mais voltado ao Heavy Metal Tradicional, valendo-se de riffs de guitarra poderosos. Em “Shadowed Image” os vocais de Zeeb assumem uma vez mais as características do timbre do Madman, embora soem mais embaraçosas que qualquer outra coisa. Com passagens acústicas breves, a música é um dos pontos altos do play, com um solo impressionante.

"I Lost You”, com sua letra de cunho evidentemente emotivo poderia passar despercebida em relação às demais. A faixa apresenta uma performance sofrível de Zeeb Parkes. Em seus versos líricos, inquestionavelmente deprimentes, o frontman consegue ofuscar o brilho do arranjo acústico, fazendo desta uma balada dispensável e mais uma faixa deslocada no álbum, soando tão mainstream quanto “Music”, mas de um resultado ainda pior.

“Quietus” resgata a pegada do Proto-Doom, tanto em seu riff inicial quanto à impostação vocal de Zeeb Parkes, lembrando em muito o saudoso Pentagram em seus três primeiros registros. Com suas mudanças de ambientação, com partes mais agressivas, passagens acústicas e mais um excelente solo de Phil Cope, a música é um clássico inquestionável do Witchfinder General e sem dúvidas, o ponto alto de Friends Of Hell. A curta “Reprise”, não mais que uma breve passagem em fade-in fecha o álbum.

A importância do Witchfinder General para a genealogia do Doom Metal jamais será deixada de lado e a grande prova disto é o culto dos apreciadores da vertente, que buscam com avidez pelos raríssimos registros em vinil da banda, verdadeiros itens de colecionador. Friends Of Hell tem toda uma carga histórica e um valor construído com o tempo, mas acima de tudo, marca a constatação do declínio da banda até sua cisão em 1984.

Ficha Técnica
Full-length, Heavy Metal Records
1983

Line Up

Zeeb Parkes - Vocais
Phil Cope - Guitarras
Rod Hawkes - Baixo
Graham Ditchfield - Bateria

Produzido por Robion George e mixado por Dave Lester

1. Love on Smack – 04:15
2. Last Chance – 03:53
3. Music – 03:08
4. Friends of Hell – 06:05
5. Requiem for Youth – 04:35
6. Shadowed Images – 04:20
7. I Lost You – 02:56
8. Quietus – 06:27
9. Reprise – 00:38


Ressurected (2008)



Após o lançamento do lendário Death Penalty e do controverso Friends Of Hell, o Witchfinder General encerraria suas atividades, mais precisamente no ano de 1983. Um longo hiatus de mais de duas décadas viria a colocar os ingleses num patamar de lenda, ao lado de bandas como Pagan Altar, Trouble, Saint Vitus e o próprio Black Sabbath, como precursora de um estilo já consolidado, o Doom Metal. O advento da internet foi sem dúvida alguma o grande responsável pelo reconhecimento tardio da banda e a difusão de sua música. Seus plays passaram a ser procurados com avidez pelos amantes do Heavy Metal e aos poucos, o Witchfinder General conseguia, após anos de sua origem, conquistar o reconhecimento devido. O repentino clamor por parte dos fãs, até então órfãos da banda, chamou atenção dos próprios integrantes, Phil Cope, remanescente da formação original, Dermot Redmond e Rod Hawkes, respectivamente baterista e baixista nos anos que antecederam a cisão do Witchfinder General e também da gravadora Nuclear War Now que acabou por abraçar a causa de revitalizar o agora então ícone do Doom Metal.

Foram lançados dois registros oficiais, Live ’83 em 2006 , um álbum ao vivo contendo gravações da última turnê da banda na década de oitenta e a compilação Buriest Among The Ruins de 2007. Como não poderia deixar de ser, a repercussão foi melhor que o esperado, encorajando a banda a retornar aos estúdios para enfim concluir um terceiro álbum de inéditas, que havia sido iniciado anos atrás, ainda na década de oitenta. Após frustradas tentativas de tirar Zeeb Parkes da aposentadoria e convencê-lo a reintegrar o line up do Witchfinder General, Phil Cope e seus companheiros acabaram por convidar Gary Martin para assumir os vocais e dá-se então o ponto chave na carreira do Witchfinder General.

Lançado em 30 de Agosto de 2008, Ressurected é sem dúvidas o trabalho mais coeso do quarteto de Stourbridge, porém as expectativas criadas em relação ao retorno da banda não foram cumpridas. Apesar do timbre débil e anasalado nos vocais de Zeeb Parkes, sua ausência foi determinante para que Ressurected fosse visto por muitos como uma grande decepção. Não se deve questionar a capacidade vocal do experiente Gary Martin, pelo contrário, sua voz casou bem com o que foi produzido pela banda, porém a identidade do Witchfinder General, aquela sonoridade que começava a se perder após Soviet Invasion acabou por sumir de vez. O sentimento nostálgico que embalou os fãs durante a década de noventa não mais existia. Não mais havia Zeeb e Phil, apenas um novo Witchfinder General, que em sua corajosa empreitada arriscava por em cheque o respaldo que haviam adquirido com o passar dos anos.

O Witchfinder General soa brilhante como conjunto neste álbum e não poderia ser diferente após um hiato tão grande. A banda teve mais tempo para compor, escrever e repensar as músicas remanescentes das décadas anteriores. A produção atinge um meio termo entre manter a sonoridade retrô da década de oitenta à um som mais definido, conseguindo conferir uma certa atmosfera nostálgica ao play. É inegável ainda que mesmo após anos, o Black Sabbath continue a ser apontada como principal referência para a banda, que ainda mostra muito desta influência em sua música. Ainda assim, em Ressurected tem-se uma nova banda, mantendo o Hard Rock o Heavy Metal Tradicional com repaginadas influências da NWOBHM, sem contar obviamente, a pegada mais arrastada e condenada do Doom Metal Tradicional. A parte lírica é de um direcionamento semelhante ao proposto nos álbuns anteriores e assim como a sonoridade, também se mostra bem resolvida. A capa do álbum, como de costume, faz referência aos cemitérios, mas desda vez, nada de seios e homens de fé. Uma cruz celta se projeta sobre o fundo sombrio da necrópole, uma imagem de cunho mais aterrador se comparada aos seus antecessores.

O trabalho de Phil Cope nas guitarras é magistral, desde o timbre utilizado à sua versatilidade nos dedilhados em violões bem encaixados durante as músicas. Os riffs cadenciados mostram muito da já citada influência do Black Sabbath, embora diferentemente dos plays anteriores, em Ressurected existam poucos solos, sendo estes breves e bem posicionados, ressaltando uma idéia maior de conjunto, diferentemente do que se tinha nos discos anteriores ao afirmar que o Witchfinder General era Zeeb Parkes e Phil Cope.
Após excursionar com a banda durante o período que antecedeu a longa pausa, Ressurected é o primeiro registro de Dermot Redmond com o Witchfinder General. As linhas de bateria são bem superiores à todas as outras presentes nos antigos plays, mostrando dinamicidade e desprendimento, cheias de detalhes bem encaixados que abrilhantam ainda mais a sonoridade da banda neste trabalho. O mesmo não se pode dizer de Rob Hawk, que continua sem conferir muito destaque ao baixo nas composições do Witchfinder General.

E o que dizer dos vocais? Gary Martin tem um timbre poderoso, agressivo e rasgado, diferentemente do direcionamento mais introspectivo e por vezes inseguro de Zeeb Parkes. Sua adição à banda contribuiu pra um direcionamento mais voltado claramente para o Hard Rock, assim como para um distanciamento dos álbuns anteriores. Gary e o Witchfinder General encontraram um ao outro e seu vocal arrojado é o grande diferencial de Ressurected.As lamúrias de Parkes cedem então lugar aos vocais quase guinchados do competente Martin.

“The Living Hell” começa o álbum de forma majestosa, com um coro que logo dá lugar a um órgão que a princípio apresenta um tritôno como intervalo, remetendo de imediato à faixa título do debut do Black Sabbath e ao mesmo tempo, criando uma atmosfera mística, típica do que faz o Pagan Altar. A composição segue com riffs distorcidos e cadenciados, progredindo para tempos médios até a entrada do vocal. Quando se espera o timbre sincero e peculiar de Zeeb Parkes, somos surpreendidos por um ainda acanhado Gary Martin e logo se abre espaço para as comparações com o debut e Friends Of Hell. Indubitavelmente “The Living Hell” é um dos grandes momentos do álbum e apenas podemos imaginar a que proporções chegaria se Zeeb ainda integrasse o line up da banda.

“The Gift Of Life” vem com uma pegada similar ao que o Black Sabbath apresentou em Master Of Reality, bem marcada, ainda mostrando uma performance acanhada de Gary Martin, embora um pouco mais despojado, chegando a remeter em determinados momentos que esta sem dúvidas, foi uma composição criada para os vocais de Zeeb Parkes, apesar de Gary não ficar devendo em ponto algum. Destaque para a contribuição genial do excelente Dermot Redmond.

“Final Justice” remete de imediato à “Electric Funeral”, composição presente no segundo disco do Black Sabbath, tanto por seus riffs quanto por sua atmosfera e ambientação mais setentista. Indo mais à fundo vemos claras influências do Pentagram em seus dois primeiros álbuns, resgatando as raízes do Doom Metal.

A instrumental “Brym-Y-Mor” é uma composição brilhante. De ambientação densa e escapista, cria um plano de fundo etéreo e vago, resgatando a melancolia e as perspectivas de fim com as melodias intercaladas dos violões e teclados, começando num dedilhado simples, sendo paulatinamente preenchida por outras pistas de instrumentos, chegando ao fim com o som das gaivotas cedendo lugar à arrancada do riff poderoso de “Brutal Existence”. A emblemática composição mostra um Gary Martin mais agressivo, casando seus versos líricos aos rffs abrasivos de Phil Cope, tal como costumava ser anteriormente com Zeeb Parkes, porém o novo front man consegue conferir à composição um caráter espantoso e vísceral. O trabalho de Phil Cope e Dermot mais uma vez merece destaque, mais um dos pontos altos do play.

“Euthanasia” tem inicio com a guitarra principal em phaser, algo até então inexplorado pela banda. Novamente, a agressividade de Gary Martin associada aos riffs cadenciados e a bateria Hard Rock de Dermot conferem uma atmosfera maldita e sentenciada. A alternância entre passagens pesadas ás acústicas e sucessivamente mais arrastadas é genial. Mais uma grande composição de Ressurected.

“A Night To Remenber” tem um direcionamento mais voltado para o Hard Rock, com traços setentistas, a começar por seus riffs, complementados por frases características de Phil Cope e a bateria inspirada de Dermot. Os vocais roucos e rasgados de Martin e os backing vocals enérgicos no refrão contribuem para a elaboração da atmosfera nostálgica do rock setentista.
The Funeral/Beyond The Grave apresenta uma vez mais um trítono como intervalo e também vibratos sombrios, numa das composições mais densas do Witchfinder General, soando como um Proto-Doom, muito semelhante ao Black Sabbath, embora com um direcionamento mais assombroso por conta dos versos narrados por Gary Martin, assumindo um timbre soturno e mau.

Em Ressurected, o Witchfinder General traz uma rebuscagem sucinta e eficiente da sonoridade das décadas de setenta e oitenta, num Hard Rock muito convincente e eficaz, superando muito do que se faz nos dias atuais. O fato da banda já não parecer com o ícone Doom cultuado ao longo da década de noventa em nada interfere no brilhantismo deste ótimo álbum, sem dúvidas, um divisor de águas na carreira do quarteto de Stourbridge.

Ficha Técnica
Full-length, Buried By Time And Dust
30 de Agosto de 2008

Line Up

Gary Martin - Vocais
Phil Cope - Guitarras
Rod Hawkes - Baixo
Dermot Redmond - Bateria

Produzido por Chris Smith

1. The Living Hell – 07:50
2. The Gift Of Life – 05:47
3. Final Justice – 04:20
4. Byrn - Y - Mor – 02:18
5. Brutal Existence – 05:15
6. Euthanasia – 05:25
7. A Night To Remenber – 04:28
8. The Funeral/Beyond The Grave – 06:57

Conclusões

O Witchfinder General trouxe uma abordagem tendenciosa ao Heavy Metal dos anos oitenta, glorificando o uso de drogas, sexo e ocultismo, revitalizando a proposta do Black Sabbath em seus primeiros álbuns, permeados de certa forma da ideologia hippie, trazendo em suas letras doses do psicodelismo e elementos do underground associados à contra-cultura, proposta esta, que foi se perdendo ao longo dos lançamentos da banda. Como um dos responsáveis pela definição do Doom Metal Tradicional na década de oitenta, durante a NWOBHM o Witchfinder General configura-se como uma das bandas menos apegada às propostas principais da sonoridade de sua época. Com uma discografia breve, de dois bons registros iniciais de certa forma frustrantes pelo que poderiam ter sido e não foram, além de um não tão bem visto terceiro álbum (o que considero uma grande injustiça). Após o lançamento de Soviet Invasion, a banda passou por mudanças discretas de sonoridade até perder-se um pouco em Friends Of Hell. Superestimados em seu período de hiato, o Witchfinder General arrisca-se ao lançar o polêmico Ressurected, que a julgar pelo título, propunha-se a trazer algo de volta do sepulcro.

Muitas das bandas que hoje são consideradas ícones do metal condenado passaram por períodos de dificuldade e desmotivação, conflagrando então num reconhecimento quase póstumo anos depois. Com o Witchfinder General não foi diferente e por conta da projeção que obtiveram com o advento da internet, retomaram atividades, porém com um novo front man, de vocal ímpio, poderoso e genuíno. O novo Witchfinder General difere da banda da década de oitenta em muitos aspectos, embora sua sonoridade atualmente esteja anos luz à frente de Friends Of Hell, a energia e o impulso abrasivo de seu debut, de fato, já não configuram como aspectos relativos à banda.

Ainda em atividade, com Gary Martin nos vocais, a banda parece para muitos ter se desvirtuado de sua proposta inicial. Fato não muito difícil de se explicar. Curiosamente, como já foi dito, o Witchfinder General atingiu o ápice de sua carreira enquanto encontrava-se em repouso e ao retornar era de se esperar que a banda ressurgisse com o vigor primordial da já aclamada dupla Zeeb e Phil. Porém não foi assim que aconteceu. Gary Martin é muito diferente, em todos os aspectos do front man da clássica formação e o resultado de sua adição à banda, aos olhos da crítica foi que a vibe nostálgica almejada pelos fãs mais novos não estava presente em Ressurected, exatamente por que uma das partes já não estava presente. Os mais saudosistas se decepcionaram com a nova roupagem do quarteto e o resultado não foi dos melhores para os caras.

Ainda é Witchfinder General, um novo Witchfinder General mais coeso de maior potencial. A coragem para arriscar trazer do túmulo uma banda clássica com uma nova voz é um feito louvável. Terá agora o quarteto de Stourbridge a capacidade de manter a linha de Ressurected e reconfigurar sua própria história?
Witchfinder General (2007) - Gary Martin, Phil Cope, Rob Hawks, Dermot Redmond

Músicas Recomendadas
Burning A Sinner, Brutal Existence, Death Penalty, Euthanasia, Final Justice, Free Country, Friends Of Hell, Quietus, The Funeral/Beyond The Grave, Witchfinder General.

Fontes
Welcome to No Stayer: Witchfinder General Offical Web Site: witchfindergeneral.net
Enciclopaedia Metallum: The Metal Archives: metal-archives.com

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Witchfinder General - Parte I

De origem inglesa, formada em Stourbridge no ano 1979, o Witchfinder General fez parte da cena Heavy Metal da Inglaterra, integrando o movimento conhecido como New Wave Of British Heavy Metal (NWOBHM) e citado posteriormente como uma das maiores influências para o desenvolvimento do Doom Metal. Assim como o Black Sabbath, o Witchfinder General foi batizado pela influência de um filme de terror clássico de mesmo nome, dirigido por Michael Reeves e lançado em 1968, baseado na história de Matthew Hopkins (interpretado por Vincent Price), o maior caçador de bruxas da Inglaterra.

A Electrode, formada por Phil Cope e Robert Hickmann nas guitarras, Rod Hawkes no baixo, Steve Kinsell na bateria e Dave Potter nos vocais, foi a primeira banda dos integrantes que viriam a compor o Witchfinder General. Chegaram apenas a realizar algumas apresentações. Com o rompimento da banda, Hickmann, Kinsell e Potter fundaram um novo conjunto, chamado Medway. Por sua vez Phil ingressaria na banda após tocar na The Jays. Em 1977, Phil Cope e Rod Hawkes tocaram juntos na Rabies, e futuramente tornariam a encontrar-se na Witchfinder General. Do reencontro de Phil com seu antigo colega de escola e roadie da Electrode, Zeeb Parkes, vieram as primeiras composições da banda, em 1979. A primeira formação da então Witchfinder General era Zeeb Parkes nos vocais, Phil Cope nas guitarras, Johnny Fisher no baixo e Steve Kinsell na bateria. Com este line up realizaram seu primeiro show no clube The Crown, em Dudley, de boa repercussão para a banda. Posteriormente, Johnny Fisher anuncia sua saída ainda em 1980. No ano seguinte, após audições com alguns outros baixistas, a banda volta a ter sua formação completa com Kevin McReady assumindo o baixo.

Witchfinder General (1979), The Crown, Dudley - Phil Cope, Zeeb Parkes, Steve Kinsell e Johnny Fisher

1981 foi o ano do lançamento do primeiro registro em estúdio do Witchfinder General, o single Burning A Sinner, nos dias atuais, um registro raríssimo, cobiçado por colecionadores e amantes do estilo. Com apenas duas composições, “Burning a Sinner” e “Satan's Children”, o registro é hoje considerado um lançamento primordial, dotado da essência do Proto-Doom, com uma sonoridade claramente influenciada pelo Black Sabbath e traz uma atmosfera sombria e densa, de canções simples, porém inovadoras. A temática lírica é medieval e remete até mesmo nas linhas vocais, à ambientação do filme que inspirou o nome da banda. Por volta dos últimos meses do mesmo ano, o Witchfinder General retorna ao estúdio Ginger para a gravação de mais um single, Soviet Invasion. Uma sonoridade mais direcionada ao Proto-Doom é o que encontramos neste registro, seguindo uma linha semelhante a de bandas como o Saint Vitus e em alguns pontos com o Vol.4 do Black Sabbath, com riffs pesados e vocais angustiantes, expressando um desespero profundo numa temática de posicionamento engajado a um apelo de paz aos países do Pacto de Varsóvia. Na área destinada ao line up, o baterista Steve Kinsell aparece sob o pseudônimo Kid Nimble.

Após algumas brigas entre Steve e Zeeb, o grupo tornou-se instável. Steve e Kevin passaram a mostrar desinteresse pelos trabalhos da banda e em 1982, deixam o Witchfinder General. Herdando o respeito póstumo comum a muitas das bandas que fundamentaram o estilo, o Witchfinder General deixou de lado as influências do Blues que permeavam seus ídolos para acrescentar a sua sonoridade peso e velocidade e assimilando os aspectos que caracterizam o Heavy Metal de bandas como Black Sabbath, Led Zeppelin e Diamond Head, trabalhando uma sonoridade distinta.

Death Penalty (1982)


Um claro registro de uma sonoridade ainda em fase de consolidação, Death Penalty mostra um Proto-Doom influenciado pela década de setenta, com algumas semelhanças á sonoridade do Pentagram e um Heavy Metal ao estilo do que o Black Sabbath fazia até a saída de Ozzy, mas não soando como uma cópia, assimilando os elementos que fizeram do Witchfinder General pertencente à NWOBHM e com toques do que viria a ser o Doom Metal Tradicional. Definitivamente um registro simples quanto a complexidade de suas composições, mas dessa simplicidade, destaca-se como um álbum muito influente para Heavy Metal, Doom e Stoner.

Gravado às presas, o registro contou com Steve Kinsell na bateria, em seu registro final antes de desfalcar o line up, enquanto Phil Cope gravou as linhas de baixo, adotando o pseudônimo Woolfy Trope. A gravação do play levou dois dias apenas, e foi realizada no Metro Studio, em Mansburry. A polêmica capa de Death Penalty, fotografia de Crave Rockersmith, retrata uma mulher com os seios à mostra (interpretada pela modelo Joanne Latham), possivelmente acusada de bruxaria, sendo atacada por homens “de fé” num cemitério. No verso, a mesma mulher aparece morta, deitada sobre um túmulo. A publicidade subseqüente esteve presente nos tablóides britânicos, e o tema da capa permeia as composições do álbum, refletindo condenação, morte, violência e injúria.

Zeeb Parkes mostra uma linha vocal situada num timbre que assimila um pouco de Ozzy somado a Joey Ramone, Bobby Liebling, Robert Plant e Rob Halford, soando ainda de forma amadora e em busca de uma auto-firmação. Seu aspecto anasalado, e ocasionalmente agudo, não contribui muito para a manutenção de uma atmosfera mais sombria e misteriosa, ficando a dever em relação ao instrumental. As guitarras contribuem com passagens melancólicas de qualidade, ambientando as composições de forma adequada, e contando também com bons riffs, dotados da velocidade que marcou a NWOBHM e ainda com utilizações de fuzz, box tipicamente setentista. A bateria apenas faz seu papel sem muito destaque, e o baixo também não faz muito além do esperado, apesar de apresentar um timbre interessante e levemente distorcido. De certa forma, o registro parece soar menos coeso que o single Soviet Invasion e o debut também ficou devendo quanto ao peso, mas merece os devidos méritos por conseguir unir de forma satisfatória a agressividade da NWOBHM e os elementos que consolidaram o Black Sabbath como referência para as gerações futuras.

O play tem início com“Invisible Hate”, que possui um trabalho vocal não tão seguro, de versos líricos que lembram muito o timbre de Bobby Liebling, o que obviamente os torna cômicos às vezes, mas que se destaca em seu refrão grudento. Com riffs de grande potencial, trazidos à tona após um começo acústico suave, a faixa segue veloz e agressiva, quebrando em passagens mais cadenciadas. A distorção da guitarra e os vocais de Zeeb estabelecem uma sonoridade de forte carga emocional, diferentemente do que se poderia esperar, soando alegre e vibrante, evocando de forma nostálgica a década de setenta em seu ápice.

“Free Country” apresenta uma boa junção de Heavy Metal Tradicional e Proto-Doom, com ótimos riffs e um solo excelente, originando um dos melhores momentos do play. A canção tem elementos claros da sonoridade do Black Sabbath, tanto nos registros de Paranoid quanto em Heaven And Hell. A bateria tem maior destaque nesta composições, com toques de Vinnie Ápice. A música é como um ode ao lema “sexo, drogas e rock&roll”.

“Death Penalty” começa com um riff evidentemente influenciado pelo trabalho de Tony Iommi e uma impostação vocal de Zeeb que lembra muito as performances de Ozzy, não fosse pela disparidade de timbre. Com um andamento cadenciado, a composição propícia uma ambientação mórbida, com uma letra condenada. Nas passagens mais dinâmicas a faixa traz muito do Black Sabbath em Master Of Reality e Vol.4. Uma passagem acústica dá seguimento à música, culminando num solo que encerra em fade out.

“No Stayer” se assemelha a um Rock&Roll, com um interessante trabalho desenvolvido no baixo e um solo de guitarra com influências de Blues. A canção começa com um bom riff, porém segue arrastando-se de forma declinante ao fim. A composição tem uma introdução que em muito lembra a música “Rat Salad” do debut do Black Sabbath. “Witchfinder General” é o ponto alto do debut, com destaque para a performance de Phil Cope, com riffs agressivos e marcantes e o poderoso refrão cantado por Zeeb Parkes. Definitivamente um clássico da banda.

“Burning A Sinner”, mais uma canção anteriormente registrada, surge aprimorada, com um trabalho superior em relação à bateria, ainda mantendo seu aspecto sombrio, conduzido num ritmo que caminha penosamente ao longo da composição. “R.I.P” aparece levemente modificada em relação a versão original do segundo single da banda, com alguns harmônicos notoriamente comparáveis aos de Tony Iommi enquanto a canção é conduzida por um riff mais arrastado, muito sombrio e condenado. O cowbell utilizado na bateria, acrescenta à composição uma identidade, assim como os backing vocals e efeitos aplicados às palavras finais dos versos de Zeeb Parkes, que por mérito merece destaque na sua boa interpretação.

Death Penalty apresenta uma banda promissora, notavelmente ainda em busca de sua identidade, talvez pela linha tênue que separa sua sonoridade de um Hard Rock setentista do Proto-Doom praticado por bandas contemporâneas à sua época. Talvez na tentativa de preencher o vazio deixado com a mudança brusca na sonoridade do Black Sabbath após a saída de Ozzy, o Witchfinder General investiu num som “antigo”, mas ainda sombrio e condenado, inegavelmente influente para o Stoner/Doom. Ao lado de bandas como Saint Vitus, The Obssessed e Pagan Altar, o debut do Witchfinder General é também considerado um álbum clássico do estilo.

Ficha Técnica

Full-length, Heavy Metal Records
1982

Zeeb Parkes - Vocais

Phil Cope - Guitarras & Baixo

Steve "Kid Nimble" Kinsell – Bateria

Produzido por Paul Birch e Pete Hinton.

Lado A.

Invisible Hate - 6.05
Free Country - 3.10
Death Penalty - 5.35
No Stayer - 4.25

Lado B.

Witchfinder General - 3.51
Burning a Sinner - 3.28
R.I.P. - 4.04

terça-feira, 29 de março de 2011

Pagan Altar - Parte Final

Mythical and Magical (2006)


Mythical and Magical, terceiro álbum do Pagan Altar, é de fato tão épico quanto seu titulo propõe. Mais uma vez, a banda mostra sua capacidade surpreendente de transcender os limites temporais e construir uma sonoridade única e “retrô”, transportando uma vez mais o ouvinte aos últimos anos da década de setenta, e como se não bastasse, mostrando ao cenário underground do metal um trabalho genial, sem nada dever à seus antecessores, pelo contrário, em Mythical and Magical, o Pagan Altar surpreende uma vez mais e chega ao seu ápice, fato este digno de aclamação e louvor, tendo em mente o brilhantismo e originalidade contidos no clássico The Lords Of Hypocrisy.

Todas as características que permearam os plays anteriores se fazem presentes neste álbum, porém ainda mais engrandecedoras, movendo a banda a um patamar adiante em sua classificação, no que muitos costumam chamar de Epic Doom Metal, aliado as influências setentistas do Hard Rock/Heavy Metal, da NWOBHM e como não poderia deixar de ser, o Doom Metal. Todas as composições deste disco exprimem uma sensação de condenação massiva e opressora, imposta de forma majestosa em evidencia obviamente às brilhantes performances dos irmãos Jones. Com seus andamentos cadenciados, as linhas vocais etéreas e alternadamente impetuosas encaixadas a uma sonoridade pesada, obscura e atmosférica, o Pagan Altar consolida-se como uma lenda viva do Doom Metal, conseguindo após três décadas manter sua linha de composição tão firme e criativa como em seus primeiros anos, erguendo-se diante de muitas outras bandas aclamadas, que com o tempo, viram no comodismo uma alternativa para um direcionamento mainstream e sacal. Diferentemente destas bandas, o legado do Pagan Altar mantém sua honra, imune a manchas e deslizes, fazendo jus ao peso que carregam como banda referência para muitas outras. Mythical and Magical não é tão pesado quanto The Lords Of Hypocrisy, mas soa ainda mais envolvente e pujante que este. O caráter lúgubre e soturno foi minimizado, dando lugar a uma sonoridade épica, vivaz, ritualística e espiritual.

O line up conta com os mesmos membros do álbum anterior, com Terry Jones nos vocais, Alan Jones nas guitarras, Mark Elliot na bateria e Trevor Portch no baixo. Mais uma vez, a produção manteve-se mais crua, não comprometendo a proposta da banda por preservar sua sonoridade setentista. Novamente vemos influências de Black Sabbath, do Hard Rock e Heavy Metal da década de setenta e do Blues Rock.

Como nos registros anteriores, baixo e bateria desempenham sua função sem grandes destaques. A atmosfera presente no álbum o torna tão original quanto seus antecessores, renovando a musicalidade do Pagan Altar de forma sutil, em momentos de peso, em passagens acústicas mais introspectivas e nos escapismos fantasiosos de verdadeiras obras-primas contidas no disco. Alan Jones definitivamente firma-se como um guitarrista genial em Mythical and Magical, mostrando inovação mesmo na sonoridade retrô da banda, com riffs pesados e encorpados, remetendo ao Heavy Metal Old School, seus solos celebram o brilhantismo da banda, ainda mais melódicos e bem construídos que tudo já feito pelo guitarrista, que tem neste álbum o máximo de seu potencial explorado até então. As linhas de guitarra mantêm a sincronia com os vocais, porém neste álbum, é óbvia sua função de atribuir unidade ás faixas, não permitindo que nada pareça deslocado. Outro ponto forte é a utilização de violões para produzir a base para os solos, reforçando o caráter folclórico de determinadas composições.

Terry Jones, com seu vocal anasalado, embora único, encaixa-se uma vez mais perfeitamente com a sonoridade estabelecida pelo restante da banda, transportando o ouvinte à década de setenta. A fórmula utilizada em The Lords Of Hypocrisy, que consistia na utilização de sintetizadores e vocais femininos foi mantida, embora se mostre menos freqüente, mas ainda assim perfeitamente bem encaixada, contribuindo uma vez mais para o engrandecimento da sonoridade do Pagan Altar. Em Mythical and Magical, temos 12 composições que datam dos primórdios da banda, e que uma vez mais mantém a originalidade e os aspectos típicos do Pagan Altar. Integram também este trabalho Valerie Watson e Rosanne Magge nos vocais e Louise Walter nos teclados. A temática lírica uma vez mais aborda elementos do paganismo e do ocultismo, desde práticas celtas, druidismo, bruxaria, magia e superstição. A ilustração na capa e de autoria de Henry Clarke e as fotos no encartem são do Castelo Dunluce, na Irlanda, que assim como outras locações registradas nos discos anteriores, possuí fama de mal- assombrado.

O álbum tem inicio com “Intro”, ao badalar de sinos e o soprar do vento, contrastando com sussurros quase inaudíveis ao fundo. Em seguida vem “Samhein”, que explora a versatilidade da banda, numa composição com base nas escalas árabes, rompe um pouco com o aspecto já consumado da banda por optar trabalhar com a música folclórica inglesa, com direcionamento mais voltado à musicalidade celta. Novamente constatamos o vocal inflamado de Terry Jones como peça chave para a ambientação das composições do Pagan Altar e como não poderia deixar de ser, Alan recebe os méritos pelo brilhantismo da faixa, com riffs e solos memoráveis, que chegam a parecerem infindáveis, envolvendo o ouvinte do começo ao fim. Os teclados ao fundo e os backing vocals de Valerie fortalecem a manutenção da atmosfera condenada e opressiva da música.

“The Cry Of The Banshee” mostra um Pagan Altar mais rápido e agressivo, com um direcionamento inédito à banda até então. Com uma levada mantida à cavalgadas e um direcionamento evidentemente relativo à NWOBHM, impõem-se após que o grito estridente que a anuncia. Uma faixa pulsante e marcada, onde os vocais de Valerie mais uma vez conferem originalidade, encaixados no ponto certo, abrilhantando a composição.

A sombria “The Crowman” começa com uma introdução acústica, seguindo por passagens mais soladas, à linha do que já havia sido visto nos álbuns anteriores. Com uma boa interação entre baixo e bateria, a composição desenvolve-se em mudanças de andamento propostas pelos solos eternizados de Alan Jones, calcados no blues e na musica folclórica inglesa, com bases executadas num violão acústico. A composição chega ao fim com um solo mais técnico, enfatizado pela mudança de andamento da música, que mesmo assumindo um caráter mais relativo à NWOBHM, não perde o encanto e magia de suas passagens acústicas. Destaque também para os duetos entre Terry Jones e Valerie Watson.

“Daemoni Na Noiche” é aterradora. Uma epopéia com o melhor da musicalidade do Pagan Altar, com um andamento mais acelerado, mudando adiante para tempos mais lentos, enfatizando a melodia das guitarras e um arranjo vocal que mais uma vez faz a diferença. “The Sorcerer” tem início com um belo arranjo vocal, propiciado por Valerie Watson e Rosanne Magee. A música constrói uma atmosfera única, me linhas de teclado e violão acústico, ofertando a Terry as bases perfeitas para a impostação de seus versos. De caráter contemplativo, a composição mostra-se como uma verdadeira epopéia, com uma ambientação que remete a um profundo envolvimento emocional e à condenação, a essência do Doom Metal capturada em definitivo.

“Flight Of The Witchqueen” mostra Terry Jones com uma impostação vocal distinta, mais projetada, numa atmosférica viajante, calcificada pelos sintetizadores ao fundo e os vocalizes de Valerie e Rosanne. Passada a introdução, a música toma um direcionamento mais dinâmico, chegando a um solo poderoso, virulento e inflamado, numa das mais brilhantes performances de Alan Jones. “Dance Of The Druids” tem início com riffs condenados, alternando seu andamento gradualmente, característica marcante à banda, assumindo passagens mais rápidas, com cavalgadas abrasivas, típicas da NWOBHM.

“The Erl King” nostalgicamente relembra os brilhantes momentos propiciados pelo dueto entre Valerie e Terry, na mesma atmosfera mística presente em The Lords Of Hyporicsy. De início com o som de cavalgadas, Terry assume o papel de pai, enquanto Valerie interpreta a filha, numa composição soturna e ambientada em cima de uma narrativa de esperança e bravura. Os teclados ao fundo e o solo de guitarra cadenciado criam um clima melancólico e reflexivo. “The Erl King” é uma verdadeira epopéia, em suas mudanças de andamento assumindo características da música celta, notoriamente marcantes pelos teclados e as vocalizações de Valerie com Rosanne nos backing vocals, com riffs distorcidos, que graças ao phaser conferem ao epílogo da composição uma ambiência viajante.

“The Witches Pathway” tem um caráter mais Hard Rock, mais veloz e dinâmica, melódica e vibrante. “Sharnie” desenvolve-se acústica, com mais da influência celta, atuando como introdução para a avassaladora canção que a sucede. “The Rising Of The Dark Lord” preserva uma característica em comum aos plays anteriores, trazer como desfecho uma composição indescritivelmente forte e marcante. Assim é “The Rising Of The Dark Lord”, com seu peso, os vocais fervorosos de Terry, guitarras abrasivas. Com um direcionamento inegavelmente épico, chegando ao fim com uma brilhante melodia, que evoca as tradições pagãs do povo inglês.

Mythical and Magical consagra o Pagan Altar como a lenda que realmente é. Uma obra-prima do século XX, forte e enigmático, detentor de um dinamismo, vitalidade e vigor que remetem à época áurea da NWOBHM e que não se perderam com o tempo.

Ficha Técnica

Full-lenght, Oracle Records
18 de Dezembro, 2006

Line up
Terry Jones - Vocais
Alan Jones - Guitarras

Trevor Portch - Baixo
Mark Elliot - Bateria

* Valerie Watson - Vocais e Backing vocals
* Rosanne Magee - Vocais e Backing vocals
* Louise Walter - Sintetizadores
* Dean Alexander – Bateria em "Cry of the Banshee” e “
The Crowman”

  1. Intro – 00:43
  2. Samhein – 05:30
  3. The Cry of the Banshee – 05:15
  4. The Crowman – 05:36
  5. Daemoni na Noiche – 05:14
  6. The Sorcerer – 07:40
  7. Flight of the Witch Queen – 04:10
  8. Dance of the Druids – 07:26
  9. The Erl King – 08:22
  10. The Witches Pathway – 05:13
  11. Sharnie – 01:20
  12. The Rising of the Dark Lord – 08:42


Conclusões

Assim como muitas outras bandas de Doom Metal das décadas de setenta e oitenta, o Pagan Altar também passou quase que despercebido e seu reconhecimento como banda inovadora e seminal veio quase duas décadas depois de sua origem. O Pagan Altar manteve-se obscuro em meio à avalanche de bandas originadas na Inglaterra em decorrência da NWOBHM, que tencionava suas atenções à grupos mais similares às propostas do movimento em si, não apenas em relação à sonoridade mas também fortemente tendencioso em relação ao caráter estético. Assim como sobreviveram ao surgimento e ao declino da NWOBHM, a musicalidade da banda resistiu à passagem de décadas para ressurgir em seu caráter setentista e underground.


Pagan Altar - Roadburn - Alan Jones, Terry Jones e Diccon Harper (2010)

Lendas vivas do Doom Metal Tradicional, não apenas pelo que produziram, mas também pela mitificação de suas performances ao vivo, à atmosfera sinistra e o poder opressor que permeiam seus shows, desde a presença da banda em si, ao caráter teatral em figurinos e adornos que faziam dos palcos um verdadeiro cenário. Vistos como uma banda soturna e má, por várias vezes foram acusados de executar suas composições em honra ao diabo. Transcendentes para sua época, assim como foram as grandes lendas do Doom Metal, o Pagan Altar venceu as adversidades do tempo como uma banda verdadeiramente underground. Ao Pagan Altar, em relação a algumas contemporâneas suas do período da NWOBHM, a exemplos de Judas Priest, Saxon e Iron Maiden, faltou apenas um contrato com alguma gravadora ou selo. Permanecer no underground após a fragmentação do movimento condenou a banda ao esquecimento, ocasionando uma das grandes injustiças do Heavy Metal, e enquanto alguns nomes consolidados entraram em decadência na tentativa de inovar e revitalizar sua sonoridade, o Pagan Altar manteve-se fiel à sua proposta, sem desviar-se de seu caminho original, transcendendo o Heavy Metal, a NWOBHM e mesmo o próprio Doom Metal, como uma das mais significantes bandas já existentes, combinando a aura de lenda viva e a essência da verdadeira sonoridade condenada.

Em 2007 a banda lança o split Pagan Altar, com a banda Jex Thoth, e como era de se esperar, mantém sua sonoridade única com a faixa Walking In The Dark, registro original de 76, regravado com toda a majestade e competência dos visionários Pagan Altar. Com a saída de Mark Elliot e Trevor Porch, a banda passa por algumas reformulações, estabilizando-se com Terry Jones nos vocais, Alan Jones na guitarra solo, Luke Hunter na guitarra base, Deano Alexander na bateria e Rusell McGuire no baixo. A banda continua em atividade, embora ainda sem previsão para o lançamento de seu próximo álbum.

Músicas Recomendadas:

March Of The Dead, Armageddon, Pagan Altar, The Lords Of Hypocrisy, Sentinels Of Hate, Judgemente Of The Dead, The Black Mass, Cry Of The Banshee, The Rising Of The Dark Lord, Daemoni na Noiche.

Fontes

Pagan Altar Holding Page: paganaltar.co.uk

Enciclopaedia Metallum: The Metal Archives: metal-archives.com