Show ‘Em How marca a cisão de Bobby e Hasselvander, num retorno a uma formação completa, com um line up composto por Kelly Charmichael (guitarras) e Adam Heinzmann (baixo), ambos do Internal Void, além do veterano Mike Smail (ex-Cathedral, Penance e Dream Death) na bateria. Como de costume, o play é constituído de releituras de antigas composições adicionado de músicas criadas mais recentemente. As antigas faixas datam da década de setenta a trazem uma vez mais a sonoridade característica da banda, com influências de Hard Rock, Stoner, Heavy Metal e Rock Psicodélico, porém vemos no álbum uma identidade sonora distinta, mais voltada a bandas como Blue Cheer e Sir Lord Baltimore do que as habituais assimilações com o Black Sabbath.
Uma nova formação revitaliza a sonoridade da banda e mostra um Pentagram confiante, mas o som feito pelo “novo” Pentagram traz uma fórmula muito similar a que foi vista em Review Your Choices, e por falar em pontos em comum, a produção de Show ‘Em How também é inferior ao seu antecessor (mas não tão relaxada), talvez no intuito de tornar o álbum mais underground e cru, tentando buscar um som mais similar ao que existia na década de setenta, quando sete das dez composições do álbum foram concebidas. Ao longo do play, as composições parecem rastejar pesarosamente ao fim e as tais releituras parecem ter perdido a atmosfera condenada que retinham, de uma banda ao longo de três décadas em atividade. Em suma, o registro pode soar como uma regressão, a meu ver principalmente pelo resgate de um grande número de velhos clássicos em arranjos que ficam devendo à época áurea da banda, notoriamente despindo as composições do que as faziam “grandes”.
Tecnicamente, vemos mais uma performance angustiantemente excêntrica e sincera, mas não menos débil de Bobby Liebling. O front man parece ter se adequado as suas novas condições vocais, com um timbre estranho e melancólico. O instrumental do álbum é de capacidade inquestionável, unindo fundamentos setentistas com a sonoridade adotada pela banda na década de oitenta, com inclinação mais nostálgica em uma roupagem moderna e de cunho melancólico, embora o nível de execução e criatividade das guitarras continue a dever para os registros com o genial Victor Griffin. O álbum pode decepcionar os que esperavam ansiosamente por uma continuidade à sonoridade de Sub – Basement ou mesmo uma retomada às origens, mas Show ‘Em How não é nem um, nem outro. Smail e Heinzmann conferem um ritmo dinâmico e orgânico ao álbum, na tentativa de uma ambientação nostálgica, porém a genialidade do Pentagram clássico não acompanhou a mudança de décadas.
O álbum começa com “Wheel of Fortune”, com uma impostação vocal de Bobby Liebling intencionalmente crua, num clima setentista. Com um som pesado e coeso, de riffs em uníssono nas guitarras e baixo e o uso extensivo dos bumbos, calcada nas bases do Heavy Metal, a faixa abre o play de forma promissora.“Elektra Glide” é uma canção densa, pesada e cadenciada, um dos pontos altos do álbum, trazendo muito do que consagrou a banda em álbuns como Day Of Reckoning e Be Forewarned. O vocal de Liebling soa agressivo, embora seus espasmos em agudos não tão bem encaixados pareçam difíceis de engolir.
“Catwalk” é sem dúvidas, ao menos nesta nova versão, uma das músicas do Pentagram onde temos um baixo presente e determinante, encorpando sua sonoridade, dotada de peso e de um andamento arrastado, numa performance vocal de Liebling que remete em parte ás atmosferas soturnas nas composições da mesma época. Uma das melhores do álbum, e inevitavelmente a mais similar aos velhos tempos, embora ainda fique devendo à original. “Starlady” soa deslocada e estranha aos padrões da banda, num claro resgate do Hard Rock, Acid Rock e do Rock Psicodélico, parecendo algo estranhamente trazido de volta do passado e discrepante em relação à aos álbuns mais antigos da banda.
“Prayer For An Exit Before the Dead End” tem uma fórmula simples e direta, oscilando entre passagens marcadas e riffs, de andamento arrastado e mais das mesmas influências que permeiam o álbum e parecem torná-lo algo divergente ao que um dia foi o Pentagram. “Goddess” tem uma dinâmica interessante entre Smail e Heinzmann, enquanto Carmichael preenche o som com suas notas agudas e crescentes. A composição ganha força da metade para o fim, assumindo mais uma vez a impostação mais Hard Rock do álbum.“City Of Romance” começa com o baixo, soando logo a princípio bem diferente dos registros anteriores, onde do instrumento pouco se ouvia. Nesta faixa os vocais de Liebling mostram-se mais graves e potentes, embora os inconvenientes “gritinhos” ainda apareçam e soem definitivamente deslocados.
“If The Winds Would Change” é uma composição melancólica, com um baixo pulsante e com uma forte carga emocional conferida pelos vocais de Liebling, que ganham força em alguns versos. Com mais um solo cadenciado e com feeling a canção segue arrastando-se para fim. O play tem continuidade com a faixa título, uma composição frenética de passagens incomuns às vistas em álbuns anteriores, passando por um andamento mais cadenciado á diante e um solo arrastado. Num geral, a música mostra mais influência do Hard Rock da década de sessenta e consideravelmente também do Acid Rock.
“Last Days Here” perdeu os timbres “surf music” de sua versão original. O tratamento dado a esta releitura pode soar questionável aos mais ortodoxos, principalmente a impostação vocal de Liebling, que acrescenta versos líricos e tom bem mais agudo à música, conferindo uma roupagem totalmente diferente da grave e ominiosa versão orginal. Comparada à versão da década de setenta, “Last Days Here’’ soa como uma nova canção, nua de sua essência, fechando o álbum.
Show ‘Em How é em minha concepção, ao lado de Review Your Choices, um registro do Pentagram essencialmente indicado a fãs, não recomendado como primeira audição da banda, embora não desnecessário em sua discografia. O álbum é um grito distante em comparação aos três primeiros registros, parecendo algo “old school” numa roupagem contemporânea.
Ficha Técnica
Full-length, Black Window
Lançado em 2004
Line-up:
Bobby Liebling - Vocais
Kelly Carmichael - Guitarras
Adam S. Heinzmann - Baixo
Mike Smail – Bateria
1. Wheel Of Fortune - 3:47
2. Elektra Glide - 3:30
3. Starlady - 5:23
4. Catwalk - 3:48
5. Prayer For An Exit Before the Dead End - 5:50
6. Goddess - 3:07
7. City Romance - 4:36
8. If the Winds Would Change - 4:42
9. Show 'em How - 5:06
10. Last Days Here - 5:10
Quanto a Bedemon e a Death Row
Dois projetos lendários, sem dúvidas, seminais para a consolidação de uma sonoridade original ao Pentagram, Bedemon e Death Row foram bandas de suma importância para a construção do Doom Metal como o subgênero que é.
Formada em San Miguel, Califórnia, em 1973, o Bedemon foi um projeto do falecido guitarrista Randy Palmer, com o ideal de executar suas composições de forma livre e descomprometida. O line up da banda contou com Bobby Liebling nos vocais, Randy Palmer nas guitarras, Greg Mayne no baixo e Geof O'Keefe na bateria. A formação do projeto antecedeu a entrada de Randy no Pentagram. Das primeiras sessões de gravação, vieram clássicos como “Child of Darkness”, “Serpent Venom” e “Frozen Fear”. O material da banda foi registrado num K7. Quando Randy passou a integrar oficialmente o line up do Pentagram, em 1974, traz consigo composições como “Starlady”, “Touch The Sky” e a clássica “Drive Me To The Grave”.
Bedemon - Geof O'Keefe, Bobby Liebling, Randy Palmer e Greg Mayne
Em 1975, já fora do Pentagram, Randy dá origem aos registros “Nightime killer” e “Time Bomb”, com a mesma formação dos anteriores, porém as divergências entre Liebling, Greg Mayne e Geof O'Keefe, resultaram na saída destes do Pentagram, e logo se uniram uma vez mais a Randy Palmer para dar continuidade ao projeto Bedemon, e em 1986 lançariam a demo Invocation Of Doom e em seguida a banda se dissolve.Uma tentativa de reunião ocorre em 2001, porém, é interrompida com a morte de Randy Palmer num acidente de carro em Agosto de 2002.
A sonoridade do Bedemon é um Proto Doom em construção (parece redundante não?!) e Randy não possuía a pretensão de registrar suas músicas para um lançamento oficial, embora isso tenha ocorrido com as composições cedidas ao Pentagram. O Bedemom teve sua importância indubitável pelo simples fato de executar canções dotadas de uma sonoridade muito mais sombria, pesada e maldita que tudo que o Pentagram tenha tentado fazer durante a década de setenta, com influências de The Stooges, Blue Cheer, Black Sabbath e Rock Psicodélico. As composições visionárias de Randy Palmer mudaram a concepção do Pentagram com seu som soturno, denso e cru, de letras sombrias e melancólicas, relativas também ao ocultismo e espiritualidade. A influência dos elementos associados ao Doom na sonoridade do Black Sabbath, é associada ao Pentagram exatamente na época em que Randy Palmer assume as guitarras. A banda continua em atividade, com Craig Junghandel nos vocais, Mike Matthews no baixo/guitarra e Geof O'Keefe na bateria/guitarra.
Death Row - Victor Griffin, Bobby Liebling, Martin Swaney e Joe Haselvander
Anos após a redução do Pentagram a seu front man apenas, Victor Griffin e Lee Abney originavam a Death Row, no começo da década de oitenta. A sonoridade da banda já se encaixava na proposta de Proto Doom, influenciados por Black Sabbath, The Obsessed, Trouble e Saint Vitus. Logo que Lee Abney deixa a banda, Martin Swaney assume o baixo e com o line up composto por Victor Griffin nas guitarras, Joe Hasselvander na bateria e Bobby Liebling nos vocais, consolidava-se a Death Row como expoente do Doom Metal. Após demos lançadas em 1982 e 1983, a formação passa a chamar-se Pentagram e o resultado disto foram os brilhantes Relenteless/Pentagram, Day Of Reckoning e Be Forewarned. A genialidade desta line up fez do Pentagram uma lenda absoluta do Doom Metal. Após idas e vindas, a banda retorna a ativa em a 2010, mantendo a formação clássica, porém não mais com Liebling nos vocais, tendo inclussive realizado um show com Eric Wagner (Trouble) em participação especial nos vocais.
Bedemon
Invocation To Doom - Demo,1986
Invocation To Doom: Child Of Darkness II 1971-1978 - Best Of/Compilation,2000
Child Of Darkness: From The Original Master Tapes - Full-length, 2005
Death Row
Through The Shadow - Vídeo/VHS,1982
All Your Sins - Demo,1982
Whore - Demo,1983
Death Row:Reunion 2000 - Split,2000
Death Is Alive: 1981-1985 - Best Of/Compilation,2000
Alive In Death - Best Of/Compilation,2009
Conclusões
Uma das bandas do chamado “cenário underground” com mais experiência e longevidade da história do metal, o Pentagram, encabeçado pelo socialmente volátil Bobby Liebling, trouxe contribuições cruciais para a música pesada, embora seu reconhecimento tenha se dado de forma tardia. O Pentagram testemunhou a ascensão do Black Sabbath, e com bases nos elementos inovadores propostos pelo quarteto inglês, formulou sua sonoridade, de um Hard Rock psicodélico a um Proto – Metal, sendo reconhecidos por fim, como uma das fundadoras de um subgênero que crescia rapidamente, posteriormente intitulado Doom Metal.
Embora promissora, a “cena Doom Metal” não recebia os devidos créditos e o trabalho da banda passou praticamente despercebido aos seus contemporâneos, salvo por grupos menores de bangers que se mantinham fiéis a uma musicalidade de proposta semelhante à do Pentagram. Os três primeiros álbuns da banda são sem dúvidas, registros seminais para a história do metal pesado, de muitas formas, semelhante ao que encontramos nos plays do Black Sabbath. Afinações mais graves, riffs memoráveis, melodias inesquecíveis, o timbre peculiar de Liebling e a genialidade de Victor Griffin, tal qual Ozzy e Iommi. Porém, ao contrário do Sabbath, o Pentagram nunca emplacou clássicos como “Paranoid” ou “War Pigs”, mas de potencial igualmente notório, foram os pioneiros em assimilar o que havia na sonoridade dos primeiros álbuns do Black Sabbath, para de forma consciente, tocar o que de fato conhecemos por Doom Metal.
Divergências à parte, os músicos egressos do Pentagram integraram o line up de empreitadas de peso no cenário Metal em suas idas e vindas, mais precisamente ao Doom e Stoner, a título de Place of Skulls, Raven, Penance, Internal Void, Solace, Cathedral, The Obssessed, CounterShaft entre outras, sem contar as lendárias Bedemon e Death Row.
Pentagram (2010) - Greg Turley, Victor Griffin e Bobby Liebling
A atual formação da banda conta com Liebling nos vocais, Greg Turley no baixo, Gary Isom na bateria e Victor Griffin, reassumindo as guitarras, trazendo a esperança de um álbum promissor para 2011, já de contrato fechado para lançamento pela Metal Blade Records, intitulado Last Rites. Tendo em mente que nem tudo foi excepcionalmente louvável após os três primeiros registros, o Pentagram tem um significado único pra cada verdadeiro admirador do Doom Metal, e a meu ver, é a eles concebido o título de pais do subgênero.
Músicas recomendadas:
Broken Vows, Be Forewarned, Death Row, Blood Lust, Tidal Waves, The Sign Of The Wolf, Wolf's Blood, The Ghoul, Last Days Here, Drive Me To The Grave.
Fontes
Joe Hasselvender's Blog of Doom: joehasselvander.blogspot.com
Enciclopaedia Metallum: The Metal Archives: metal-archives.com



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