quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Proto-Doom

Não exatamente enquadrado como um subgênero do Doom Metal, devido a sua sonoridade em fase de construção, o Proto-Doom é um rótulo utilizado convencionalmente para classificar determinadas bandas que contribuíram para a formação do estilo, com uma musicalidade característica, original da década de setenta, que assimila andamentos cadenciados, ambientações sombrias e peso como principais elementos.

A calcificação da sonoridade das bandas precursoras do estilo se fundamenta a principio com o Hard Rock de meados para o final da década de sessenta, assim como o Rock Psicodélico, mais precisamente o Acid Rock, caracterizado por longos solos de guitarra e improvisações (por sua vez, trazidas do jazz e do blues). O Blue Cheer, formado no fim dos anos 60, trazia uma sonoridade calcada no Blues e no Rock&Roll, executando canções à frente de sua época, que resultavam em composições com um peso até então inédito, iniciando o que viria a ser o Heavy Metal. Na mesma época, a Black Widow, tocando um Rock Progressivo mesclado ao Hard Rock, trazia letras de abordagens místicas e ocultistas e também a temática satânica, além de suas performáticas apresentações, atraindo a atenção do público por seu posicionamento transgressor.


Blue Cheer,1968, Dickie Peterson(Baixo, vocais), Leigh Stephens(Guitarras), Paul Whaley(Bateria)


Em 1968, o Deep Purple incorporava elementos de Música clássica, Blues-Rock, Pop e Rock Progressivo e também inovava, com riffs simples, porém potentes e solos marcantes de guitarra. O Cream assimilava à sua música elementos também do jazz, principalmente em relação à bateria. A banda inglesa, assim como The Jimmy Hendrix Experience teve grande impacto na época, influenciando toda uma geração e além.

Em 1970, o debut homônimo do Black Sabbath tornaria o quarteto inglês um ícone da história do Rock, como precursores do Heavy Metal e banda seminal para o desenvolvimento do Doom Metal. Puramente uma banda de Proto-Metal, incorporavam elementos do Blues, Jazz, Rock&Roll, Hard Rock, Stoner e do Rock Psicodélico, originando uma sonoridade sombria, ambientada de forma lúgubre e cadenciada, com timbres de guitarra que soavam soturnos por seu peso, distorção e afinações graves. Suas letras abordavam temas de ocultismo e terror e canções como “Black Sabbath”, “Hand Of Doom” e “Sweet Leaf” tornaram-se clássicos para o Doom e Stoner. A genialidade de Tony Iommi, com seus riffs memoráveis foi influência para boa parte das bandas da época, assim como os vocais de timbre semelhante ao de Ozzy (e também Dickie Peterson, do Blue Cheer), comumente associados ao Proto-Doom.


Ozzy Osbourne, front man do Black Sabbath


Do som revolucionário do Black Sabbath, bandas como Pentagram, Bedemom, Death Row e Witchfinder General extraíram os elementos necessários para o início de trabalhos sobre uma nova concepção. Surgia então o Proto-Doom. A pioneira Pentagram trabalhou mediante a influência do Sabbath em uma sonoridade diferente e de propósito definido, porém o resultado final ainda mostrava-se preso aos parâmetros da época e ainda não era Doom, mas sim algo que viria a ser, efetuando-se a década de oitenta, com o lançamento do debut Pentagram/Relentless.

O subgênero, que embora tenha como grandes nomes as bandas das décadas de setenta e oitenta, é também executado por bandas mais novas, como Agnosis, Lyijykomppania, Northwinds, de sonoridade contemporânea, porém buscando a essência da década de setenta em timbres orgânicos e ambientação nostálgica, tendo influências em comum com as bandas de três décadas atrás.

Uma das discussões mais pertinentes à cerca das origens do estilo é a classificação do Black Sabbath. Alguns defendem que a banda criou o Doom Metal e consequentemente a rotulam como tal, mas eu particularmente discordo. O Proto-Doom é um rótulo auto-explicativo, onde o Proto deriva de protótipo, ou seja, o primeiro exemplar de algo do qual modelos posteriores tomarão bases. Esse é exatamente o caso do quarteto inglês, uma banda pioneira com sua musicalidade, porém aplicada ao Heavy Metal e estendida a este intento, não tendo como objetivo a formulação de um som baseado apenas em seus aspectos mais sombrios, o que viria a ser trabalhado exatamente pelo Pentagram.

Indubitavelmente comprovamos isso com composições como “Rat Salad”, “Evil Woman” ,“Fairies Wear Boots” e até mesmo “Paranoid”. A essência do Doom Metal foi extraída de músicas como “Black Sabbath”, “Hand Of Doom” e “Sleeping Village”, em análise, estéticamente discrepantes em relação às anteriormente citadas. Enquanto músicas como “Sweet Leaf” e “Children Of The Grave” influenciariam diretamente o Stoner, “Paranoid” pode ser assimilada com influência ao Speed Metal e “Symptom of the Universe” para o Death Metal. O leque de estilos influenciados pelo Black Sabbath é vasto e em cima de seus registros inicias as primeiras bandas de Proto-Doom construíram sua música. Acredito então que o mais adequado seria classificar a banda como Proto-Metal, pois mesmo depois de sua consolidação como Heavy Metal, Tony Iommi e seus companheiros nunca exerceram um trabalho direcionado ao Doom de forma direta, apenas concederam elementos que foram absorvidos de diferentes formas para a origem de uma nova concepção musical. Por fim, acredito que o Proto-Doom não é Doom de fato, mas sim um subgênero em estado de fundamentação.

3 comentários:

  1. É proposta ousada digredir sobre a história de um ou vários estilos, mas ao mesmo tempo é quase única, pela qualidade, no cenário nacional.

    O texto realmente denuncia uma pesquisa apurada, mas ao meu ver ainda falta, para ficar uma coisa realmente foda, um nivel de detalhamento que perpasse albuns e músicas, apontando "aquilo que é". Afinal é díficil escrever sobre o som. Citar músicas talvez facilite o leitor, preguiçoso, à uma melhor apreensão do que você quer passar. Sei que você fez isso na parte do Black Sabbath, mas seria legal apontar o mesmo nas bandas mais desconhecidas.

    No mais, achei excelente. Principalmente por ser uma fonte "melhor mastigada" para ouvintes que querem conhecer mais sobre o estilo, mas ainda não pesquisaram profundamente.

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  2. Só tenho a agradecer pelas críticas engrandecedoras ao blog!Muito obrigado.

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  3. Parabéns pelo blog e pelo texto excelente.
    O doom é muito pouco apreciado e divulgado é sempre bom ver um blog dedicado e esse estilo.

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