No dia exato da morte de Jimi Hendrix, o Black Sabbath lançava o sucessor de seu primeiro álbum. O mundo via surgir um disco determinante para o Rock e o Heavy Metal, uma compilação das mais brilhantes composições do quarteto inglês. A situação política da época, com o conflito entre os EUA e o Vietnã gerou toda uma movimentação por parte de uma juventude tomada por ideais de sentimento coletivo, que clamava pelo fim da guerra, indo às ruas em protesto, focada nas transformações da consciência, dos valores e do comportamento da sociedade, ideário típico do movimento conhecido como Contracultura. Neste contexto Paranoid é lançado. A gravação do álbum durou quatro dias e a produção novamente ficou por conta de Rodger Bain.
Assim como em Black Sabbath, Paranoid mantém um direcionamento soturno em suas composições, abordando temas relativos ao ocultismo e a influência das forças das trevas sobre o mundo em que vivemos, criando um clima constante de pesadelo e angústia. A banda mostrava-se bem politizada, num posicionamento de crítica ao governo e a guerra, dando seu ponto de vista sobre um assunto ao qual a maioria temia falar. O mundo via a Guerra do Vietnã como um assunto tabu e logo em sua primeira faixa, Paranoid rompe os parâmetros vigentes, atingindo diretamente na ferida.
"War Pigs" apresenta ainda fortes influências do jazz, com riffs antológicos de Iommi e uma marcação concisa nos tempos fortes, tal como as marchas militares, enquanto o som de uma sirene é ouvido ao fundo. Com mudanças de andamento constantes, a música vai de passagens cadenciadas ao caos sonoro, nos versos anti-belicistas vociferados por Ozzy e os solos de guitarra hipnóticos, de toques psicodélicos, chegando ao fim após quase oito minutos. Uma crítica direta à guerra e aos poderes políticos e militares por trás do conflito.
"Paranoid" vem com uma levada mais acelerada, um verdadeiro clássico do Heavy Metal, exercendo influência não apenas para as bandas do estilo, repercutindo também no cenário punk da época. Os vocais de Ozzy conferem à composição um clima de histeria, intrínseco à letra. Com riffs violentos de guitarra e linhas de bateria dinâmicas, apesar de sua simplicidade, sem dúvidas assim como as demais faixas do debut, muito acrescenta à posteridade. Guitarra e baixo executam exatamente as mesmas notas em boa parte da música, tornando-a ainda mais pesada, uma tendência comum às bandas atuais.
"Planet Caravan" é uma viagem musical, predominantemente acústica, de caráter experimental e carregada de influências do jazz, utiliza bongôs para um trabalho interessante de percussão. Os vocais arrastados e característicos de Ozzy, potencializados por um amplificador de teclado Leslie, criam uma atmosfera alucinógena. Com um solo de violão a composição chega ao fim, deixando uma sensação pós-apocalíptica, reforçada por sua letra fantasiosa.
A tranqüilidade gerada por "Planet Caravan" logo é rompida por um dos riffs mais pesados compostos por Tony Iommi. "Iron Man" inicia com a marcação de Ward no bumbo, a guitarra distorcida e um vocal sintetizado de Ozzy, numa atmosfera sombria, seguindo por riffs lendários. As linhas de bateria mostram o dinamismo de Ward, com viradas velozes e marcações cortantes nos tempos fortes, valendo-se do prato de ataque para acentuar o som. A faixa tem seu ápice após um intervalo fantástico, por volta dos três minutos, e então Iommi executa um de seus solos mais poderosos. Sem dúvidas, "Iron Man" foi a música mais pesada da década de 70 e um clássico inquestionável do Heavy Metal.
"Electric Funeral" gera um ambiente de condenação, recriando a sensação eminente do fim presente em algumas composições do debut da banda, de forma crua e opressiva, através dos vocais ameaçadores de Ozzy. Os riffs soturnos de Iommi, complementados pelo efeito do pedal Wah wah, seguem de forma arrastada, mudando de andamento adiante, com a execução de notas mais altas e retornando às passagens cadenciadas por fim. "Hand of Doom" começa com um andamento lento, rompido logo pelos refrões poderosos, numa temática de morte, dor, sofrimento e desilusão por meio do domínio total de substâncias entorpecentes. Os vocais expressivos de Ozzy, indo de versos calmos aos mais caóticos, e as linhas de baixo sombrias de Geezer, conduzindo a música após os riffs pesados de guitarra, conferem à composição uma ambientação tensa, característica determinante à muito do que a banda produziu no começo da década de setenta. Arrastada, pesada, sombria e para muitos considerada como influência inquestionável para a rotulação do Doom Metal como tal, "Hand of Doom" mostra um Sabbath dinâmico, alternando de forma eficiente entre a calmaria e a distorção, mantendo uma atmosfera condenada, que consagrou a banda por sua sonoridade única.
A instrumental "Rat Salad" vem em seguida, com destaque evidente para as progressões de Ward e os riffs crescentes de guitarra, ressaltando mais uma vez a influência do blues, que marca também "Jack the Stripper/Fairies Wear Boots", fechando o play "Jack the Stripper/Fairies Wear Boots", influência para bandas de Stoner, mantém as bases musicais vistas no primeiro álbum dos ingleses, de raízes calcadas no blues, jazz e rock&roll, com riffs únicos de Iommi, destacando também a atuação brilhante de Bill Ward.
Ficha Técnica
Full-length, Warner / Vertigo
Lançado em 18 de Setembro de 1970
Line-up:
Ozzy Osbourne - Vocais
Tony Iommi - Guitarras, Teclados
Terrance "Geezer" Butler - Baixo
Bill Ward - Bateria
Produzido por Rodger Bain para Tony Hall Enterprises
Lado 1
1. War Pigs/Luke's Wall – 7:57
2. Paranoid – 2:52
3. Planet Caravan – 4:32
4. Iron Man – 5:58
Lado 2
1. Electric Funeral – 4:52
2. Hand of Doom – 7:07
3. Rat Salad – 2:31
4. Jack the Stripper/Fairies Wear Boots – 6:15
Master Of Reality (1971)
Como uma banda significativamente diferente daquela que em Fevereiro de 1970 lançava seu debut, o Black Sabbath retorna aos estúdios no ano seguinte, desta vez no Record Plant, em Los Angeles, como uma banda consciente de sua proposta e a meta de fazer, até então, o que seria seu mais pesado álbum. Para tanto, o registro contaria com seus instrumentos harmônicos utilizando uma afinação um tom e meio abaixo da original. O processo de gravação durou seis dias e contou uma vez mais com a produção de Rodger Bain.
As influências dos trabalhos anteriores continuam presentes, porém Master Of Reality traz uma sonoridade simples e despojada, ainda mais pesada e cadenciada, um som direto, diverso e experimental, referência indubitável para bandas de Doom Metal e Stoner. Master Of Reality, mostra coesão do início ao fim, com riffs que vão do folk ao psicodélico, inconfundíveis em sua simplicidade. Neste álbum os solos de guitarra apresentam-se precisos e eficientes, embora não tão freqüentes quanto em Paranoid. Os vocais de Ozzy parecem ganhar mais força, variando constantemente. A sintonia entre Ward e Butler é magistral, as linhas de baixo ganham mais destaque neste álbum, enquanto a bateria mostra eficácia em quebradas de tempo e performances poderosas nas passagens. É importante salientar o uso de sintetizadores, não apenas no princípio e fim das músicas, mas também em seu desenvolvimento, característica inédita até então nas composições do Sabbath.
"Sweet Leaf" tem inicio com uma tossida, antecedendo um dos maiores riffs já criados por Iommi, original e pesado, seguindo com levadas de bateria marcando a primeira metade da música e viradas dinâmicas nas transições, acentuadas pelo uso do prato china. Ozzy mostra uma evolução evidente em sua performance vocal. Em apologia à maconha, a carga emocional presente em sua voz acentua a dependência da banda à droga naquela época. "Sweet Leaf" é sem dúvida uma referência para o Stoner, numa ambientação escuramente psicodélica e mística.
"After Forever" começa com um sintetizador funesto e modulado, remetendo ao blues e ao jazz em sua continuidade na guitarra, com uma introdução consideravelmente alheia aos padrões estabelecidos nos álbuns anteriores, um tanto alegre. Com um solo calcado no blues, levadas com toques de funk, e os típicos riffs pesados, Iommi confirma sua versatilidade. A letra manifesta uma posição cristã acusatória contra a hipocrisia do mundo em relação à religião, onde Ozzy mostra mais segurança nos vocais, com um tom questionador em seus versos. O baixo é essencialmente pesado nesta composição, conduzindo-a. O sintetizador se faz presente nas passagens que antecedem os versos e também no fim da composição, criando um plano de fundo atípico ao que se via anteriormente no Black Sabbath.
A instrumental "Embryo" com elementos de polka, música folclórica inglesa e composições medievais, atua como introdução para a revolucionária "Children Of The Grave", num fade in explossivo, de seguimento pesado, com riffs cavalgados, esbanjando originalidade. Os vocais de Ozzy mais uma vez se sobressaem, marcados por um feeling nos agudos de forma inspirada. Bateria e baixo mostram uma sintonia perfeita, criando a base ideal para os harmônicos de Iommi. Um break cadenciado, com a presença mais uma vez dos sintetizadores, retornando em seguida ao verso, em continuidade num solo memorável, terminando com sintetizadores executando bends soturnos. "Children Of The Grave" apresenta uma dinâmica muito associada às bandas de Stoner, sendo referência para o estilo.
"Orchid", outra faixa instrumental, remete à calmaria após o baque de sua antecessora. Uma curta passagem acústica com dedilhados bem executados e um fundo modulado, mais uma vez efetuado pelo sintetizador. "Lord Of This World" segue com riffs estáticos, atribuindo um andamento cadenciado à música. Durante os versos, o baixo e a guitarra mostram grande sintonia, garantindo peso à composição, seguindo num solo com guitarras intercaladas, esbanjando feeling, acompanhado de uma ótima base de Butler. Nesta faixa em especial, é possível notar o uso do "cowbell" acentuando a marcação na bateria. Assim como algumas outras composições do debut, "Lord Of This World" parece tentar redimir o Sabbath da imagem de "roqueiros satânicos" que lhes foi atribuída com os álbuns anteriores.
Em "Solitude", Ozzy mostra a variedade de seu timbre, numa composição viajante, com uma flauta desfalecida e um piano ao fundo, criando uma atmosfera nebulosa, insólita, com elementos fortes da música folk, idealizando um cenário intimista e profundo em presságio ao fim e ao desapego do mundo material.
Apocalíptica, prevendo o fim de um mundo imerso em valores tecnocratas e em total desprendimento aos conceitos tradicionais, "Into The Void" fecha o álbum, com passagens pesadas acentuadas pelo baixo e riffs cadenciados, onde bends, slides e vibratos conferem uma configuração macabra à música, marcada também por uma passagem mais rápida, com uma mudança de andamento característica ao que muitas bandas de Thrash Metal fariam posteriormente, chegando ao fim com um solo típico de Iommi.
Em definitivo, Master Of Reality trouxe ao mundo novos conceitos, sendo estes determinantes para os mais abrangentes gêneros do metal, um clássico inquestionável e um feito de qualidade absoluta, para uma banda geradora de tendências, que num intervalo de pouco mais de dois anos, deu a luz a três dos maiores álbuns da história da música pesada.
Ficha Técnica
Full-length, Warner
Lançado em 1 de Julho de 1971
Line-up:
Ozzy Osbourne - Vocais
Tony Iommi – Guitarras, Teclados e Sintetizadores
Terrance "Geezer" Butler - Baixo
Bill Ward - Bateria
Produzido por Rodger Bain para Tony Hall Enterprises
1. Sweet Leaf – 05:05
2. After Forever – 05:26
3. Embryo – 00:28
4. Children of the Grave – 05:17
5. Orchid – 01:31
6. Lord of This World – 05:26
7. Solitude – 05:02
8. Into the Void – 06:12


Ei, se liga nisso aqui:
ResponderExcluirhttp://medob.blogspot.com/2010/12/smiledog-ou-smilejpg.html
Foto perfeita de um mad dog. Lê o conto também. Vai axar mó mentira, mas olha os comentários...
Bom,nem comento a veracidade do conto,por que meu ceticismo quanto a esses assuntos chega a níveis extremos.Quanto a foto,achei bem cômica, non sense mesmo...
ResponderExcluirO nome Mad Dog foi inspirado na música de mesmo nome, do álbum Sub-Basement, de 2001, dos americanos do Pentagram.