terça-feira, 29 de março de 2011

Pagan Altar - Parte Final

Mythical and Magical (2006)


Mythical and Magical, terceiro álbum do Pagan Altar, é de fato tão épico quanto seu titulo propõe. Mais uma vez, a banda mostra sua capacidade surpreendente de transcender os limites temporais e construir uma sonoridade única e “retrô”, transportando uma vez mais o ouvinte aos últimos anos da década de setenta, e como se não bastasse, mostrando ao cenário underground do metal um trabalho genial, sem nada dever à seus antecessores, pelo contrário, em Mythical and Magical, o Pagan Altar surpreende uma vez mais e chega ao seu ápice, fato este digno de aclamação e louvor, tendo em mente o brilhantismo e originalidade contidos no clássico The Lords Of Hypocrisy.

Todas as características que permearam os plays anteriores se fazem presentes neste álbum, porém ainda mais engrandecedoras, movendo a banda a um patamar adiante em sua classificação, no que muitos costumam chamar de Epic Doom Metal, aliado as influências setentistas do Hard Rock/Heavy Metal, da NWOBHM e como não poderia deixar de ser, o Doom Metal. Todas as composições deste disco exprimem uma sensação de condenação massiva e opressora, imposta de forma majestosa em evidencia obviamente às brilhantes performances dos irmãos Jones. Com seus andamentos cadenciados, as linhas vocais etéreas e alternadamente impetuosas encaixadas a uma sonoridade pesada, obscura e atmosférica, o Pagan Altar consolida-se como uma lenda viva do Doom Metal, conseguindo após três décadas manter sua linha de composição tão firme e criativa como em seus primeiros anos, erguendo-se diante de muitas outras bandas aclamadas, que com o tempo, viram no comodismo uma alternativa para um direcionamento mainstream e sacal. Diferentemente destas bandas, o legado do Pagan Altar mantém sua honra, imune a manchas e deslizes, fazendo jus ao peso que carregam como banda referência para muitas outras. Mythical and Magical não é tão pesado quanto The Lords Of Hypocrisy, mas soa ainda mais envolvente e pujante que este. O caráter lúgubre e soturno foi minimizado, dando lugar a uma sonoridade épica, vivaz, ritualística e espiritual.

O line up conta com os mesmos membros do álbum anterior, com Terry Jones nos vocais, Alan Jones nas guitarras, Mark Elliot na bateria e Trevor Portch no baixo. Mais uma vez, a produção manteve-se mais crua, não comprometendo a proposta da banda por preservar sua sonoridade setentista. Novamente vemos influências de Black Sabbath, do Hard Rock e Heavy Metal da década de setenta e do Blues Rock.

Como nos registros anteriores, baixo e bateria desempenham sua função sem grandes destaques. A atmosfera presente no álbum o torna tão original quanto seus antecessores, renovando a musicalidade do Pagan Altar de forma sutil, em momentos de peso, em passagens acústicas mais introspectivas e nos escapismos fantasiosos de verdadeiras obras-primas contidas no disco. Alan Jones definitivamente firma-se como um guitarrista genial em Mythical and Magical, mostrando inovação mesmo na sonoridade retrô da banda, com riffs pesados e encorpados, remetendo ao Heavy Metal Old School, seus solos celebram o brilhantismo da banda, ainda mais melódicos e bem construídos que tudo já feito pelo guitarrista, que tem neste álbum o máximo de seu potencial explorado até então. As linhas de guitarra mantêm a sincronia com os vocais, porém neste álbum, é óbvia sua função de atribuir unidade ás faixas, não permitindo que nada pareça deslocado. Outro ponto forte é a utilização de violões para produzir a base para os solos, reforçando o caráter folclórico de determinadas composições.

Terry Jones, com seu vocal anasalado, embora único, encaixa-se uma vez mais perfeitamente com a sonoridade estabelecida pelo restante da banda, transportando o ouvinte à década de setenta. A fórmula utilizada em The Lords Of Hypocrisy, que consistia na utilização de sintetizadores e vocais femininos foi mantida, embora se mostre menos freqüente, mas ainda assim perfeitamente bem encaixada, contribuindo uma vez mais para o engrandecimento da sonoridade do Pagan Altar. Em Mythical and Magical, temos 12 composições que datam dos primórdios da banda, e que uma vez mais mantém a originalidade e os aspectos típicos do Pagan Altar. Integram também este trabalho Valerie Watson e Rosanne Magge nos vocais e Louise Walter nos teclados. A temática lírica uma vez mais aborda elementos do paganismo e do ocultismo, desde práticas celtas, druidismo, bruxaria, magia e superstição. A ilustração na capa e de autoria de Henry Clarke e as fotos no encartem são do Castelo Dunluce, na Irlanda, que assim como outras locações registradas nos discos anteriores, possuí fama de mal- assombrado.

O álbum tem inicio com “Intro”, ao badalar de sinos e o soprar do vento, contrastando com sussurros quase inaudíveis ao fundo. Em seguida vem “Samhein”, que explora a versatilidade da banda, numa composição com base nas escalas árabes, rompe um pouco com o aspecto já consumado da banda por optar trabalhar com a música folclórica inglesa, com direcionamento mais voltado à musicalidade celta. Novamente constatamos o vocal inflamado de Terry Jones como peça chave para a ambientação das composições do Pagan Altar e como não poderia deixar de ser, Alan recebe os méritos pelo brilhantismo da faixa, com riffs e solos memoráveis, que chegam a parecerem infindáveis, envolvendo o ouvinte do começo ao fim. Os teclados ao fundo e os backing vocals de Valerie fortalecem a manutenção da atmosfera condenada e opressiva da música.

“The Cry Of The Banshee” mostra um Pagan Altar mais rápido e agressivo, com um direcionamento inédito à banda até então. Com uma levada mantida à cavalgadas e um direcionamento evidentemente relativo à NWOBHM, impõem-se após que o grito estridente que a anuncia. Uma faixa pulsante e marcada, onde os vocais de Valerie mais uma vez conferem originalidade, encaixados no ponto certo, abrilhantando a composição.

A sombria “The Crowman” começa com uma introdução acústica, seguindo por passagens mais soladas, à linha do que já havia sido visto nos álbuns anteriores. Com uma boa interação entre baixo e bateria, a composição desenvolve-se em mudanças de andamento propostas pelos solos eternizados de Alan Jones, calcados no blues e na musica folclórica inglesa, com bases executadas num violão acústico. A composição chega ao fim com um solo mais técnico, enfatizado pela mudança de andamento da música, que mesmo assumindo um caráter mais relativo à NWOBHM, não perde o encanto e magia de suas passagens acústicas. Destaque também para os duetos entre Terry Jones e Valerie Watson.

“Daemoni Na Noiche” é aterradora. Uma epopéia com o melhor da musicalidade do Pagan Altar, com um andamento mais acelerado, mudando adiante para tempos mais lentos, enfatizando a melodia das guitarras e um arranjo vocal que mais uma vez faz a diferença. “The Sorcerer” tem início com um belo arranjo vocal, propiciado por Valerie Watson e Rosanne Magee. A música constrói uma atmosfera única, me linhas de teclado e violão acústico, ofertando a Terry as bases perfeitas para a impostação de seus versos. De caráter contemplativo, a composição mostra-se como uma verdadeira epopéia, com uma ambientação que remete a um profundo envolvimento emocional e à condenação, a essência do Doom Metal capturada em definitivo.

“Flight Of The Witchqueen” mostra Terry Jones com uma impostação vocal distinta, mais projetada, numa atmosférica viajante, calcificada pelos sintetizadores ao fundo e os vocalizes de Valerie e Rosanne. Passada a introdução, a música toma um direcionamento mais dinâmico, chegando a um solo poderoso, virulento e inflamado, numa das mais brilhantes performances de Alan Jones. “Dance Of The Druids” tem início com riffs condenados, alternando seu andamento gradualmente, característica marcante à banda, assumindo passagens mais rápidas, com cavalgadas abrasivas, típicas da NWOBHM.

“The Erl King” nostalgicamente relembra os brilhantes momentos propiciados pelo dueto entre Valerie e Terry, na mesma atmosfera mística presente em The Lords Of Hyporicsy. De início com o som de cavalgadas, Terry assume o papel de pai, enquanto Valerie interpreta a filha, numa composição soturna e ambientada em cima de uma narrativa de esperança e bravura. Os teclados ao fundo e o solo de guitarra cadenciado criam um clima melancólico e reflexivo. “The Erl King” é uma verdadeira epopéia, em suas mudanças de andamento assumindo características da música celta, notoriamente marcantes pelos teclados e as vocalizações de Valerie com Rosanne nos backing vocals, com riffs distorcidos, que graças ao phaser conferem ao epílogo da composição uma ambiência viajante.

“The Witches Pathway” tem um caráter mais Hard Rock, mais veloz e dinâmica, melódica e vibrante. “Sharnie” desenvolve-se acústica, com mais da influência celta, atuando como introdução para a avassaladora canção que a sucede. “The Rising Of The Dark Lord” preserva uma característica em comum aos plays anteriores, trazer como desfecho uma composição indescritivelmente forte e marcante. Assim é “The Rising Of The Dark Lord”, com seu peso, os vocais fervorosos de Terry, guitarras abrasivas. Com um direcionamento inegavelmente épico, chegando ao fim com uma brilhante melodia, que evoca as tradições pagãs do povo inglês.

Mythical and Magical consagra o Pagan Altar como a lenda que realmente é. Uma obra-prima do século XX, forte e enigmático, detentor de um dinamismo, vitalidade e vigor que remetem à época áurea da NWOBHM e que não se perderam com o tempo.

Ficha Técnica

Full-lenght, Oracle Records
18 de Dezembro, 2006

Line up
Terry Jones - Vocais
Alan Jones - Guitarras

Trevor Portch - Baixo
Mark Elliot - Bateria

* Valerie Watson - Vocais e Backing vocals
* Rosanne Magee - Vocais e Backing vocals
* Louise Walter - Sintetizadores
* Dean Alexander – Bateria em "Cry of the Banshee” e “
The Crowman”

  1. Intro – 00:43
  2. Samhein – 05:30
  3. The Cry of the Banshee – 05:15
  4. The Crowman – 05:36
  5. Daemoni na Noiche – 05:14
  6. The Sorcerer – 07:40
  7. Flight of the Witch Queen – 04:10
  8. Dance of the Druids – 07:26
  9. The Erl King – 08:22
  10. The Witches Pathway – 05:13
  11. Sharnie – 01:20
  12. The Rising of the Dark Lord – 08:42


Conclusões

Assim como muitas outras bandas de Doom Metal das décadas de setenta e oitenta, o Pagan Altar também passou quase que despercebido e seu reconhecimento como banda inovadora e seminal veio quase duas décadas depois de sua origem. O Pagan Altar manteve-se obscuro em meio à avalanche de bandas originadas na Inglaterra em decorrência da NWOBHM, que tencionava suas atenções à grupos mais similares às propostas do movimento em si, não apenas em relação à sonoridade mas também fortemente tendencioso em relação ao caráter estético. Assim como sobreviveram ao surgimento e ao declino da NWOBHM, a musicalidade da banda resistiu à passagem de décadas para ressurgir em seu caráter setentista e underground.


Pagan Altar - Roadburn - Alan Jones, Terry Jones e Diccon Harper (2010)

Lendas vivas do Doom Metal Tradicional, não apenas pelo que produziram, mas também pela mitificação de suas performances ao vivo, à atmosfera sinistra e o poder opressor que permeiam seus shows, desde a presença da banda em si, ao caráter teatral em figurinos e adornos que faziam dos palcos um verdadeiro cenário. Vistos como uma banda soturna e má, por várias vezes foram acusados de executar suas composições em honra ao diabo. Transcendentes para sua época, assim como foram as grandes lendas do Doom Metal, o Pagan Altar venceu as adversidades do tempo como uma banda verdadeiramente underground. Ao Pagan Altar, em relação a algumas contemporâneas suas do período da NWOBHM, a exemplos de Judas Priest, Saxon e Iron Maiden, faltou apenas um contrato com alguma gravadora ou selo. Permanecer no underground após a fragmentação do movimento condenou a banda ao esquecimento, ocasionando uma das grandes injustiças do Heavy Metal, e enquanto alguns nomes consolidados entraram em decadência na tentativa de inovar e revitalizar sua sonoridade, o Pagan Altar manteve-se fiel à sua proposta, sem desviar-se de seu caminho original, transcendendo o Heavy Metal, a NWOBHM e mesmo o próprio Doom Metal, como uma das mais significantes bandas já existentes, combinando a aura de lenda viva e a essência da verdadeira sonoridade condenada.

Em 2007 a banda lança o split Pagan Altar, com a banda Jex Thoth, e como era de se esperar, mantém sua sonoridade única com a faixa Walking In The Dark, registro original de 76, regravado com toda a majestade e competência dos visionários Pagan Altar. Com a saída de Mark Elliot e Trevor Porch, a banda passa por algumas reformulações, estabilizando-se com Terry Jones nos vocais, Alan Jones na guitarra solo, Luke Hunter na guitarra base, Deano Alexander na bateria e Rusell McGuire no baixo. A banda continua em atividade, embora ainda sem previsão para o lançamento de seu próximo álbum.

Músicas Recomendadas:

March Of The Dead, Armageddon, Pagan Altar, The Lords Of Hypocrisy, Sentinels Of Hate, Judgemente Of The Dead, The Black Mass, Cry Of The Banshee, The Rising Of The Dark Lord, Daemoni na Noiche.

Fontes

Pagan Altar Holding Page: paganaltar.co.uk

Enciclopaedia Metallum: The Metal Archives: metal-archives.com



Nenhum comentário:

Postar um comentário