quinta-feira, 21 de julho de 2011

Trouble - Parte I

Com o fim dos anos setenta, o cenário underground europeu presenciava a ascensão do Punk Rock e o declínio do Heavy Metal. A NWOBHM surgiu com a intenção de revitalizar a música pesada, gerando novos conceitos e tendências.  Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, surgia no derradeiro ano daquela mesma década, na cidade de Chigaco, Illinois, o Trouble.

Com uma proposta diferente do que previa a NWOBHM, a banda americana buscava referências nas raízes do Heavy Metal, numa roupagem setentista, assimilando muito da velha guarda do Metal, assim como do Rock Psicodélico. Embora no começo dos anos oitenta o Metal tenha vivido um período de progresso significativo, bandas como Pentagram, Witchfinder General, e tantas outras que direcionavam sua criatividade musical para um retorno aos valores dos anos setenta, nunca saíram do underground e durante toda sua carreira, jamais chegaram a obter grande retorno comercial. Com o Trouble não foi diferente.

Originado em 1979 pelo vocalista Eric Wagner, o Trouble fez história entre os adeptos do Doom e do Stoner, com seu estilo retrô, riffs cadenciados, proporcionados por afinações graves, que originavam timbres densos e sombrios em músicas arrastadas, embora dotadas de um vigor nunca visto anteriormente. Ao lado de Saint Vitus, The Obsessed e das outras lendas do metal condenado, o Trouble resgatou os primórdios do Metal e o resignificou, originando uma sonoridade inovadora, influência indubitável para as futuras gerações de bandas de Doom Metal que estariam por vir.   

Com Eric Wagner nos vocais, Bruce Franklin e Rick Wartell nas guitarras, Ian Brown no baixo e Jeff Olson na bateria, o Trouble tinha sua primeira formação. A proposta da banda, a principio, não se enquadrava em muito do que era produzido pelos demais grupos de Metal contemporâneo seus. Enquanto a maioria dos novos projetos que surgiam colocavam o foco em andamentos mais velozes em suas músicas, o Trouble tencionava para tempos médios, em composições mais arrastadas, de riffs mais cadenciados, tendo como principal influência, o Proto-Doom executado pelo Black Sabbath. Os anos oitenta contribuíram para a sonoridade do Trouble no tocante à timbres. Ao invés do usual Fuzz Box, extensamente explorado durante os anos setenta, os resultados arrojados obtidos por bandas como Iron Maiden e Judas Priest com seus timbres abrasivos de guitarra, encorajaram o Trouble a adicionar à sua música diferentes distorções, potencializadas por sua grave afinação (D), resultando num som denso, sombrio e condenado. O Stoner presente em Master Of Reality e as influências do Rock Psicodélico em Black Sabbath e Paranoid foram assimilados durante a construção da identidade musical da banda.

 Eric Wagner e Bruce Franklin - 1984

Nos primeiros meses de formação, a banda ensaiava arduamente suas composições, mesclando influências de bandas como Deep Purple, Black Sabbath, Led Zeppelin e Budgie. No começo da década de oitenta, a banda lança de forma independente, seu primeiro registro, contendo três faixas. Os primeiros anos da década de oitenta marcaram apresentações pelo Centro – Oeste do país. Em 1982, viria o segundo registro da banda, trazendo composições que integrariam a track list de seu debut. No ano seguinte, Ian Brown deixa a banda, sendo substituído por Sean McAllister. O baixista deixa como último registro, o enérgico álbum ao vivo de 1983. Ainda neste ano, o Trouble viria com mais um lançamento independente, mais uma demo, contendo duas faixas. Com uma sonoridade madura e bem definida, a banda consegue por fim, assinar com a gravadora Metal Blade Records, que ganhava projeção nesta época, após revelar nomes como Metallica, Possessed e Overkill, com a coletânea Metal Massacre Vol. I.

Psalm 9 (1984)


Em 1984, de contrato assinado com a Metal Blade Records, o Trouble entraria em estúdio para a gravação de seu debut. As composições foram se construindo ao longo dos anos e o resultado final foi o que já era de se esperar ao ouvir o Live de 1983, um debut clássico.  Em Fevereiro daquele ano, nos estúdios da Track Records, em Los Angeles, Psalm 9 ganharia forma. A formação permanecia a mesma da demo do ano anterior, com  Eric Wagner nos vocais, Bruce Franklin e Rick Wartell nas guitarras Sean McAllister no baixo e Jeff Olson na bateria.

Psalm 9 é uma obra prima, fundamentalmente enérgico, sombrio e como não poderia deixar de ser, pesado. Com uma atmosfera densa, o play é cheio de passagens arrastadas, porém seus excelentes riffs tomam o ouvinte de surpresa, muito bem encaixados ao longo do álbum, revelando uma dinâmica associada ao Thrash Metal, de bandas clássicas como Metallica e Slayer, que neste período estavam em ascensão. A agressividade das guitarras faz um contraponto com os vocais abrasivos de Eric Wagner, atribuindo ainda mais agressividade às composições, associando estes fatores como herança direta a alguns dos conceitos da NWOBHM.

Os vocais de Eric Wagner diferem consideravelmente dos timbres anasalados e dementes de vocalistas como Zeeb Parkes, Bobby Liebling e obviamente, do Madman, Ozzy Osbourne. Com seus poderosos versos líricos  e suas guinadas fenomenais, o frontman associa os conceitos trabalhados pela NWOBHM numa linha entre o Power e o Thrash Metal.  O reverb aplicado à sua voz confere um aspecto sombrio e ímpio às composições de Psalm 9.

As guitarras mostram-se muito bem construídas, com melodias fortes e fundamentadas. O timbre aplicado por Bruce Franklin e Rick Wartell  confere versatilidade, fazendo com que seus instrumentos soem de forma atual, embora revitalizem aspectos oriundos da década de setenta em suas músicas. As bases esbanjam influências do Thrash Metal, dotadas de velocidade e agressividade, oferecendo às composições um caráter único, que se impõe com autoridade, ora denso e cadenciado com seus riffs abafados, ora abrasivo e violento. Os solos ajustam-se a essa estrutura, valendo-se de tappings, técnica amplamente explorada pelos guitarristas durante e após NWOBHM, legatos e longos vibratos, também variando entre passagens mais arrastadas quanto em verdadeiros assaltos, que tomam o ouvinte de surpresa.
O trabalho de Sean McAllister é contido, porém eficaz. Sem grandes momentos, o baixo executa as mesmas notas que a guitarra, porém seu peso contribuí para a atmosfera pesarosa do debut. A bateria, por conta de Jeff Olson, é um ponto de destaque em Psalm 9. Os grooves e pedais duplos marcam o álbum, preenchendo as músicas com eficácia e dialogando perfeitamente com a harmonia soturna desenvolvida pelos demais instrumentistas .

O álbum inicia com “The Tempter”, estabelecendo de pronto uma atmosfera mística e espiritual que permeia todo o desenrolar do álbum, cedendo espaço para riffs que expressam a genialidade do Black Sabbath em seus primeiros álbuns, partindo em seguida para uma levada insana e inesperada, liberando a fúria das influências do Thrash Metal. “The Temper” consegue sintetizar as influências de Psalm 9 perfeitamente, prenunciando um álbum enérgico, espontâneo e destruidor. Dos riffs iniciais ao seu solo, marcado por uma base fortemente direcionada ao Stoner, a faixa mostra versatilidade do conjunto e explicita a proposta lírica direcionada ao cristianismo.

“Assassin” retoma as influências da NWOBHM, com riffs poderosos, com mais de Vol.4 e Master Of Reality, expressando ainda traços de Power Metal em seu formato, reafirmados pelos vocais pujantes de Eric . “Victim Of The Insane” arrasta-se numa progressão condenada, de riffs graves e cadenciados, realçada por harmonizações sutis com colações precisas de timbre. O timbre dramático de Eric Wagner é determinante nesta faixa, transmitindo uma sensaão de condenação eminente, tendo um discreto órgão ao fundo, nas bases.  Após um solo bem construído, a faixa inicia uma passagem marcada, com mais traços evidentes das influências de Stoner, anunciando uma outra passagem, mais agressiva e veloz, conduzindo-a ao fim. 

“Revalation (Life Or Death)” tem muito da pegada cadenciada do Black Sabbath em Master Of Reality. “Bastards Will Pay” começa agressiva, com uma impostação vocal de Eric Wagner que transmite toda a ira e revolta que sua letra almeja expressar. Com um dos melhores solos do disco, a composição alterna do cadenciado aos grooves, mostrando a versatilidade e competência do Trouble. Destaque para o trabalho de Bruce Franklin, Rick Wartell e claro, Jeff Olson.

“The Fall Of Lúcifer” mostra uma pegada mais voltada para o Heavy Metal Tradicional, mantendo o peso e cadencia do álbum. A instrumental “Endtime” têm um inicio quebrado, partindo para passagens com influências de Stoner, com riffs pesados e grooves bem encaixados. Uma excelente composição, que sintetiza com maestria a genialidade aplicada à Psalm 9.

A faixa-título é um verdadeiro clássico. Os versos narrados de Eric Wagner dão início a “Psalm 9” e logo em seguida, temos mais riffs cadenciados, gerando uma base pesada, típica do Sotner, em contraste a frases mais agudas. Apresentando ainda passagens com influências do Thrash Metal e cadencias embasadas por Master Of Reality, a composição implícita o direcionamento lírico e ideológico do Trouble, em total submissão ao deus cristão. A faixa chega ao fim com a contraditória frase “God loves us all”.

“Tales Of Brave Ullyses” fecha o álbum. A música é um cover da banda inglesa Cream, e traz um Hard Rock sessentista, evidenciando em parte as influências do Rock Psicodélico que o Trouble viria a assimilar em sua sonoridade anos depois.

Psalm 9 é um álbum seminal, não apenas por atribuir uma nova leitura aos elementos que o Black Sabbath deixou como herança às futuras gerações, mas por sua importância para a formação da sonoridade do Doom Metal como hoje conhecemos. O leque de bandas influenciadas por este trabalho é dos mais vastos , o primeiro passo para a consolidação do Trouble como uma das lendas da vertente condenada do Metal. Psalm 9 foi um álbum à frente de seu tempo, associando o Doom Metal Tradicional aos então recém surgidos Thrash e Power Metal.

Ficha Técnica
Full-lenght, Metal Blade Records
Março de 1984

Line- up
Eric Wagner - Vocais
Bruce Franklin - Guitarra
Rick Wartell - Guitarra
Sean McAllister - Baixo
Jeff Olson - Bateria

Produzido por Trouble, Bil Metoyer e Brian Slagel.

1.The Tempter - 06:37
2.Assassin - 03:13
3.Victim Of The Insane - 05:10
4.Revelation (Life Or Death) - 05:06
5.Bastards Will Pay - 03:43
6.The Fall Of Lucifer - 05:54
7.Endtime - 04:59
8.Psalm 9 - 04:49

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