The Skull (1985)
Com Psalm 9, o Trouble atingiu o patamar de banda fundamental na genealogia do Doom Metal, trazendo novos conceitos e gerando tendências. O sucessor do aclamado debut viria no ano seguinte ao seu lançamento. The Skull, originalmente lançado em Março de 1985 não conseguiu manter o nível de qualidade do primeiro full-lenght da banda. Os elementos marcantes de Psalm 9 estão todos presentes, mas The Skull soa como uma repetição do álbum anterior, sem inovar ou mesmo trazer contribuições significativas para o que já vinha sendo feito na época. É importante deixar claro que The Skull é um grande álbum, embora não consiga igualar-se ou mesmo sobrepujar Psalm 9. Um dos pontos cruciais do disco é o adensamento de sua atmosfera, sem duvidas mais opressora e condenada que em Psalm 9.
The Skull deixou consideravelmente de lado a pegada mais arrastada e cadenciada que marcava as faixas mais densas de Psalm 9, investindo mais em composições de andamentos mais velozes e em tempos médios também. A fusão de elementos do Thrash e Power Metal com uma estética significativamente similar à do Black Sabbath em seus primeiros discos ainda é o foco da banda, embora a agressividade de outrora já não impressione tanto quando deveria e as transições de passagens arrastadas para as mais velozes parecem mais previsíveis e não dão às composições o mesmo gás do disco anterior. O novo álbum foi concebido após o lançamento do single Assassin, que continha músicas presentes em Psalm 9 e da demo lançada em 1985, que curiosamente trazia composições que seriam utilizadas apenas dois anos depois, no bem visto Run To The Light, de 1987. As músicas “Gideon”, “The Wish” e “Wickedness Of Man” já haviam sido escritas antes mesmo do lançamento de Psalm 9, e aparecem como parte integrante de The Skull com modificações significativas, dada a evolução da banda.
A banda manteve-se unida desde o lançamento de Psalm 9, com Eric Wagner nos vocais, Bruce Franklin e Rick Wartell nas guitarras Sean McAllister no baixo e Jeff Olson na bateria. A parte lírica continua a expressar o posicionamento cristão da banda, porém enquanto Psalm 9 exaltava o amor de deus para com os homens, The Skull soa apocalíptico e esbanja insatisfação e ira. Tecnicamente, a sonoridade da banda está mais madura neste novo trabalho, que traz mais uma vez como destaque as guitarras e o genial Eric Wagner, que apresenta maior diversidade, arriscando-se com competência em timbres diferenciados. O frontman chega ao ápice nos versos líricos, onde mesmo expressando mensagens de cunho cristão, consegue transmitir decadência, condenação e desespero com uma força expressiva absurda.
Bruce Franklin e Rick Wartell fizeram um trabalho memorável neste álbum. A influência do Black Sabbath retém-se quase em absoluto ao que foi feito nos álbuns Master Of Reality e Vol. 4. A entonação permanece grave e o peso não foi deixado de lado, mas dinâmica e os recursos utilizados seguem os direcionamentos apontados pela NWOBHM, principalmente no tocante aos solos e a utilização corriqueira de duals. A presença de passagens acústicas com maior destaque e certo toque neoclássico são exemplos de experimentações que funcionaram muito bem em The Skull, calcificando os trechos mais atmosféricos do álbum.
A bateria mantém o bom trabalho mostrado em Psalm 9, bem marcada e dando um seguimento eficaz à proposta da banda e ainda explosiva nas passagens mais agressivas. O baixo aparece com maior destaque neste álbum, com trechos bem encaixados onde ganha maior projeção, sendo também fundamental para a manutenção do peso constante presente no disco. Neste disco, notamos o uso discreto de sintetizadores, que em sua maioria, realçam as passagens mais melancólicas das composições.
“Pray For The Dead” abre o play de forma competente, mostrando uma impostação vocal diferente do que Eric Wagner apresentou no debut, assumindo uma entonação mais grave, que progressivamente ganha força e cresce de forma furiosa. A pegada Stoner mostra-se evidente, prendendo a composição num andamento marcado e ímpio, que após uma das típicas pontes da banda, verte em uma passagem agressiva, culminando num solo arrasador.
“Fear No Evil” é uma faixa agressiva, retomando os conceitos mais básicos do Heavy Metal Tradicional, simples, pesado e veloz, com uma excelente performance de Eric Wagner, com versos líricos poderosos. O trabalho das guitarras num geral, mas em especial no solo, mostra influências diretamente associada ao Judas Priest. Alguns traços sutis de Thrash Metal também se fazem presentes.
A épica “The Wish”, uma epopéia com mais de onze minutos, representa com eficácia o que foi o Doom Metal durante a década de oitenta. Seu início acústico estabelece uma atmosfera melancólica, reforçada pelos sintetizadores sutis ao fundo e impostação suave de Eric Wagner, saltando para um trecho marcado e pesado, evocando as raízes do Stoner em Master Of Reality. Um classico da banda e um dos pontos altos do disco, com transições muito bem encaixadas e elementos psicodélicos bastante sutis, mas que contribuem para o seu caráter viajante e introspectiva.
“The Truth Is/ The What Is” evoca a pegada Stoner de Master Of Reality, soando condenada, como deveria ser, mostrando também certos traços progressivos. Mantendo a fórmula bem sucedida das composições anteriores, a faixa chega ao seu desfecho após uma passagem de andamento mais veloz e agressivo. “Wickedness Of Man” tem uma construção similar à faixa anterior quanto ao conceito, valendo-se das influências do Stoner, fundamentadas pelo Black Sabbath em Master Of Reality. Há inclussive um riff construído de forma muito similar ao presente no hino Children Of The Grave. A bateria e o baixo têm destaque nesta faixa, trabalhando em conjunto de forma muito eficiente. Os backingvocals de Eric são um ponto de destaque na faixa, exaltando a ira contida em seus versos líricos. “Gideon” logo em seu riff inicial anuncia à que veio, agressiva e veloz, valendo-se das influências do Thrash e do Power Metal, presentes em Psalm 9, calcificadas pela bateria pujante de Jeff Olson.
A faixa título encerra o álbum em grande estilo. Uma passagem acústica reforça a melancolia dos vocais de Eric Wagner no início de “The Skull”, que se mantém arrastada e soturna, mesmo nas transições onde os riffs mais pesados e cadenciados se projetam. O trabalho das guitarras nesta faixa é fenomenal, contribuindo para a criação de uma atmosfera lúgubre e como de costume, Eric mostra-se em mais uma performance inspirada, assumindo um timbre diferente do usual. Como um dos elementos característicos do play, “The Skull” passa do cadenciado para o agressivo, chegando ao fim de forma enérgica. “The Skull” é o ponto alto do play, resgatando com maestria as características que marcaram Psalm 9 em uma composição clássica do Trouble.
O Trouble, assim como a maioria das bandas que se projeta como um conjunto fortemente influenciado pelo Black Sabbath, buscou distanciar-se um pouco desta classificação, tentando formular sua identidade de forma mais pessoal ao longo dos anos. Neste álbum, a banda mantém-se na linha entre o Proto-Doom e a NWOBHM, revelando também, de forma sucinta, uma pegada relacionada ao Stoner. The Skull deu continuidade à sonoridade da banda de forma muito competente e convenhamos que superar o seminal Psalm 9 não é tarefa das mais fáceis. Salientando que mais uma vez, a projeção do disco não foi a esperada. Com a popularização do Glam e a cena Thrash Metal da Bay Area, The Skull passou quase que despercebido, sem contar que o direcionamento cristão adotado pela banda sempre gerou certo preconceito.
Ficha Técnica
Full-lenght, Metal Blade Records
Março de 1985
Line- up
Eric Wagner - Vocais
Bruce Franklin - Guitarra
Rick Wartell - Guitarra
Sean McAllister - Baixo
Jeff Olson - Bateria
Produzido por Trouble e Bil Metoyer.
1. Pray for the Dead - 05:54
2. Fear No Evil - 04:12
3. The Wish - 11:35
4. Truth Is/What Is - 04:39
5. Wickedness of Man - 05:46
6. Gideon - 05:10
7. The Skull - 05:41

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