quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Trouble - Parte II

The Skull (1985)




Com Psalm 9, o Trouble atingiu o patamar de banda fundamental na genealogia do Doom Metal, trazendo novos conceitos e gerando tendências. O sucessor do aclamado debut viria no ano seguinte ao seu lançamento.  The Skull, originalmente lançado em Março de 1985 não conseguiu manter o nível de qualidade do primeiro full-lenght da banda.  Os elementos marcantes de Psalm 9 estão todos presentes, mas The Skull soa como uma repetição do álbum anterior, sem inovar ou mesmo trazer contribuições significativas para o que já vinha sendo feito na época.  É importante deixar claro que The Skull é um grande álbum, embora não consiga igualar-se ou mesmo sobrepujar Psalm 9. Um dos pontos cruciais do disco é o adensamento de sua atmosfera, sem duvidas mais opressora e condenada que em Psalm 9.

The Skull deixou consideravelmente de lado a pegada mais arrastada e cadenciada que marcava as faixas mais densas de Psalm 9, investindo mais em composições de andamentos mais velozes e em tempos médios também. A fusão de elementos do Thrash e Power Metal com uma estética significativamente similar à do Black Sabbath em seus primeiros discos ainda é o foco da banda, embora a agressividade de outrora já não impressione tanto quando deveria e as transições de passagens arrastadas para as mais velozes parecem mais previsíveis e não dão às composições o mesmo gás do disco anterior.  O novo álbum foi concebido após o lançamento do single Assassin, que continha músicas presentes em Psalm 9 e da demo lançada em 1985, que curiosamente trazia composições que seriam utilizadas apenas dois anos depois, no bem visto Run To The Light, de 1987. As músicas “Gideon”, “The Wish” e “Wickedness Of Man” já haviam sido escritas antes mesmo do lançamento de Psalm 9, e aparecem como parte integrante de The Skull com modificações significativas, dada a evolução da banda.

A banda manteve-se unida desde o lançamento de Psalm 9, com Eric Wagner nos vocais, Bruce Franklin e Rick Wartell nas guitarras Sean McAllister no baixo e Jeff Olson na bateria. A parte lírica continua a expressar o posicionamento cristão da banda, porém enquanto Psalm 9 exaltava o amor de deus para com os homens, The Skull soa apocalíptico e esbanja insatisfação e ira. Tecnicamente, a sonoridade da banda está mais madura neste novo trabalho, que traz mais uma vez como destaque as guitarras e o genial Eric Wagner, que apresenta maior diversidade, arriscando-se com competência em timbres diferenciados. O frontman chega ao ápice nos versos líricos, onde mesmo expressando mensagens de cunho cristão, consegue transmitir decadência, condenação e desespero com uma força expressiva absurda. 

Bruce Franklin e Rick Wartell fizeram um trabalho memorável neste álbum. A influência do Black Sabbath retém-se quase em absoluto ao que foi feito nos álbuns Master Of Reality e Vol. 4. A entonação permanece grave e o peso não foi deixado de lado, mas dinâmica e os recursos utilizados seguem os direcionamentos apontados pela NWOBHM, principalmente no tocante aos solos e a utilização corriqueira de duals. A presença de passagens acústicas com maior destaque e certo toque neoclássico são exemplos de experimentações que funcionaram muito bem em The Skull, calcificando os trechos mais atmosféricos do áo cionaram muito bem em The Skull, calcificando os trechos mais atmosfericos . ade, arriscando-se com competencia lbum.

A bateria mantém o bom trabalho mostrado em Psalm 9, bem marcada e dando um seguimento eficaz à proposta da banda e ainda explosiva nas passagens mais agressivas. O baixo aparece com maior destaque neste álbum, com trechos bem encaixados onde ganha maior projeção, sendo também fundamental para a manutenção do peso constante presente no disco. Neste disco, notamos o uso discreto de sintetizadores, que em sua maioria, realçam as passagens mais melancólicas das composições. 

 “Pray For The Dead” abre o play de forma competente, mostrando uma impostação vocal diferente do que Eric Wagner apresentou no debut, assumindo uma entonação mais grave, que progressivamente ganha força e cresce de forma furiosa. A pegada Stoner mostra-se evidente, prendendo a composição num andamento marcado e ímpio, que após uma das típicas pontes da banda, verte em uma passagem agressiva, culminando num solo arrasador.

“Fear No Evil” é uma faixa agressiva, retomando os conceitos mais básicos do Heavy Metal Tradicional, simples, pesado e veloz, com uma excelente performance de Eric Wagner, com versos líricos poderosos. O trabalho das guitarras num geral, mas em especial no solo, mostra influências diretamente associada ao Judas Priest. Alguns traços sutis de Thrash Metal também se fazem presentes. 

A épica “The Wish”, uma epopéia com mais de onze minutos, representa com eficácia o que foi o Doom Metal durante a década de oitenta.  Seu início acústico estabelece uma atmosfera melancólica, reforçada pelos sintetizadores sutis ao fundo e impostação suave de Eric Wagner, saltando para um trecho marcado e pesado, evocando as raízes do Stoner em Master Of Reality. Um classico da banda e um dos pontos altos do disco, com transições muito bem encaixadas e elementos psicodélicos bastante sutis, mas que contribuem para o seu caráter viajante e introspectiva.

“The Truth Is/ The What Is” evoca a pegada Stoner de Master Of Reality, soando condenada, como deveria ser, mostrando também certos traços progressivos. Mantendo a fórmula bem sucedida das composições anteriores, a faixa chega ao seu desfecho após uma passagem de andamento mais veloz e agressivo. “Wickedness Of Man” tem uma construção similar à faixa anterior quanto ao conceito, valendo-se das influências do Stoner, fundamentadas pelo Black Sabbath em Master Of Reality. Há inclussive um riff construído de forma muito similar ao presente no hino Children Of The Grave. A bateria e o baixo têm destaque nesta faixa, trabalhando em conjunto de forma muito eficiente. Os backingvocals de Eric são um ponto de destaque na faixa, exaltando a ira contida em seus versos líricos. “Gideon” logo em seu riff inicial anuncia à que veio, agressiva e veloz, valendo-se das influências do Thrash e do Power Metal, presentes em Psalm 9, calcificadas pela bateria pujante de Jeff Olson.

A faixa título encerra o álbum em grande estilo. Uma passagem acústica reforça a melancolia dos vocais de Eric Wagner no início de “The Skull”, que se mantém arrastada e soturna, mesmo nas transições onde os riffs mais pesados e cadenciados se projetam. O trabalho das guitarras nesta faixa é fenomenal, contribuindo para a criação de uma atmosfera lúgubre e como de costume, Eric mostra-se em mais uma performance inspirada, assumindo um timbre diferente do usual. Como um dos elementos característicos do play, “The Skull” passa do cadenciado para o agressivo, chegando ao fim de forma enérgica. “The Skull” é o ponto alto do play, resgatando com maestria as características que marcaram Psalm 9 em uma composição clássica do Trouble.

O Trouble, assim como a maioria das bandas que se projeta como um conjunto fortemente influenciado pelo Black Sabbath, buscou distanciar-se um pouco desta classificação, tentando formular sua identidade de forma mais pessoal ao longo dos anos. Neste álbum, a banda mantém-se na linha entre o Proto-Doom e a NWOBHM, revelando também, de forma sucinta, uma pegada relacionada ao Stoner. The Skull deu continuidade à sonoridade da banda de forma muito competente e convenhamos que superar o seminal Psalm 9 não é tarefa das mais fáceis. Salientando que mais uma vez, a projeção do disco não foi a esperada. Com a popularização do Glam e a cena Thrash Metal da Bay Area, The Skull passou quase que despercebido, sem contar que o direcionamento cristão adotado pela banda sempre gerou certo preconceito.

Ficha Técnica
Full-lenght, Metal Blade Records
Março de 1985

Line- up
Eric Wagner - Vocais
Bruce Franklin - Guitarra
Rick Wartell - Guitarra
Sean McAllister - Baixo
Jeff Olson - Bateria

Produzido por Trouble e Bil Metoyer.

1. Pray for the Dead - 05:54
2. Fear No Evil - 04:12
3. The Wish - 11:35
4. Truth Is/What Is - 04:39
5. Wickedness of Man - 05:46
6. Gideon - 05:10
7. The Skull - 05:41

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